Está aqui

A política mesquinha também contribui para grandes desastres

[Carlos] César mudou de opinião porque achou que era uma boa altura para criticar o Bloco, mesmo sabendo ele da deturpação e aproveitamento desta polémica pela agenda da extrema-direita.

"É importante que na sociedade portuguesa não se escondam acontecimentos como estes, que não sejam mascarados ou trivializados, sendo, antes, devidamente valorizados. É importante que na sociedade portuguesa se aprofunde o debate sobre o racismo". São as palavras de Carlos César, líder parlamentar do PS, em junho de 2018, quando uma jovem negra foi vítima de um violento ataque racista no Porto por um segurança privado. Na altura, também a atuação da PSP foi alvo de inquérito por alegada inação.

Meses depois deste incidente que, como bem disse César, "esconde uma realidade que também coincide na vida social portuguesa" é divulgado um vídeo em que surgem vários polícias a agredir um pai e uma mãe, negros, de um rapaz que estava a ser detido num bairro pobre.

Eu não sei o que se passou antes. Mas sei que as forças de segurança só podem empregar a força quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. E, ao ver aquele vídeo, não vislumbro em que medida foi necessário bater assim naquela gente. E não posso, nem quero, ignorar o contexto em que aconteceu. Não posso nem quero ignorar a miséria estrutural do Bairro da Jamaica e não posso, nem quero, ignorar o facto de aquelas pessoas serem negras.

Estou com isto a dizer que todos os polícias abusam da força ou são movidos por racismo? Não. Não me atribuam palavras para alimentar uma falsa guerra que só interessa aos grupelhos de extrema-direita. Mas estou a dizer que sim, há abusos. E, sim, há discriminação social e racial na sociedade, e a polícia não está imune a ela.

Calar as imagens de violência não é solução. Foi através de um vídeo que César se chocou com o caso da rapariga negra. E foi através de um vídeo que uma deputada do Bloco, e vereadora na Câmara da Almada, denunciou a violência que a chocou no Bairro da Jamaica. Ao fazê-lo, mostrou que responde no seu mandato por todas as pessoas quando é preciso.

Este episódio foi aproveitado pelo PSD, que fez o discurso do PNR, ao acusar quem denuncia a violência de "incitador". César, por sua vez, declara que denunciar a violência é "acirrar ânimos" e que estes são episódios "inéditos". Exatamente o contrário do que defendeu antes.

César mudou de opinião porque achou que era uma boa altura para criticar o Bloco, mesmo sabendo ele da deturpação e aproveitamento desta polémica pela agenda da extrema-direita. Não me preocupa o dano que César possa fazer ao meu partido, julgo aliás que o jogo não compensa. Preocupa-me o oportunismo corrosivo que troca valores democráticos pela disputa mesquinha das próximas eleições.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 29 de janeiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
(...)