A política dos gestos simbólicos

porAdriana Temporão

24 de março 2026 - 13:31
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A forma como o Dia da Mulher continua a ser tratado na política local revela o mesmo problema de fundo: demasiados executivos continuam a achar que este é um dia para oferecer flores ou cremes. Quando a política trata a desigualdade com gestos simbólicos, não está a resolvê-la, está apenas a perpetuá-la.

Neste mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, não poderia deixar de fazer um balanço do que foi este dia no meu distrito. A próxima parte do texto vai ser muito focada no Alto Minho, mas certamente haverá paralelos com muitos outros e, no final, chegaremos todas à mesma conclusão.

Não sei se por coincidência, este ano a grande maioria das autarquias do distrito de Viana do Castelo investiu muito menos neste dia. Houve autarquias que nem sequer o assinalaram e outras que, pela forma como o fizeram, nem sei bem se o deveriam ter feito.

No total de 10 concelhos do Alto Minho, um deles não marcou de forma alguma (aposto que quem conhece o distrito e os executivos sabe qual é, dica: é liderado por um partido começado por C e acabado em DS); três deles assinalaram apenas com um post nas redes: Monção criou um vídeo em que eram reproduzidas “opiniões” de munícipes bem retrógradas, uma ferramenta destas deveria servir para o executivo perceber como deve atuar e como sensibilizar, não pode servir de altifalante para o passado; Vila Nova de Cerveira fez um post sobre “Ser Mulher”, onde refere, entre outras coisas, que “É criar, cuidar, decidir e seguir!”, deixo ao vosso critério avaliar o nível de bafio desta publicação. E Viana do Castelo, com o sentido de responsabilidade que tem por ser capital de distrito (adicionem um quê de ironia aqui), publicou uma foto de minhotas com duas frases totalmente banais (vá, pelo menos não ofereceu cocktails nem chamou à iniciativa “As rainhas regressam à praça”, nem tudo está perdido).

Valença e Melgaço optaram pelo básico “reconhecimento”, com uma lembrança simbólica às suas trabalhadoras (ui, peço desculpa, “colaboradoras”): uma flor e alguns produtos de beleza. Melgaço opta por recordar “a herança, a força e a bravura que caracterizam as mulheres do concelho”; já Valença refere “o apreço institucional pelo trabalho quotidiano das mulheres ao serviço do município”.

Os Arcos de Valdevez organizaram quizzes e leituras de poesia com lanche, aos quais juntaram uma abordagem parecida às outras, mas chamaram-lhe “miminho”, “de forma a celebrar e divulgar a razão da existência do Dia da Mulher, acompanhado de uma mensagem a explicar a origem desta data, assim como a dar força e coragem para continuarem a combater as desigualdades que ainda persistem”. O que eles quiseram dizer foi: mulheres trabalhadoras dos Arcos de Valdevez, em vez de fazermos o que nos compete para tornar este concelho menos desigual, menos machista e misógino, vamos dar-vos um “miminho” para vos dar força para fazerem aquilo que é nossa competência e responsabilidade. Ponte da Barca, diferenciou-se por ser “um pequeno mimo” e organizar uma sessão de Step.

Já Caminha e Paredes de Coura distinguiram-se de todos os outros na forma como abordaram esta data. A primeira optou pela música, que é sempre uma boa forma de passar mensagens, organizando três concertos “3 dias, 3 vozes no feminino”. Paredes de Coura teve diversas iniciativas, com um programa variado, entre conversas, desporto e concertos.

Agora que estão todos os concelhos contabilizados, conseguem ver semelhanças entre estes e os vossos?

Este dia é demonstrativo da forma desatualizada de fazer política localmente. Todos os anos o Alto Minho perde gente, gente qualificada que não vê futuro nesta região, não só por questões laborais, mas também por questões como estas. A maioria dos executivos do Alto Minho parou no tempo e não está preparada para responder às novas gerações nem às problemáticas do futuro.

Talvez por isso tenha dito que, no final, provavelmente chegaríamos todas à mesma conclusão. Não importa muito o concelho de que partimos, a forma como o Dia da Mulher continua a ser tratado na política local revela o mesmo problema de fundo. Perante dados persistentes de desigualdade de género, de violência e de movimentos misóginos em crescimento, dentro e fora das redes, demasiados executivos continuam a achar que este é um dia para celebrar, para oferecer flores ou cremes, ou para fazer um post que permita cumprir calendário.

Enquanto persistir a ideia de que basta um gesto simbólico para assinalar desigualdades profundas, estaremos apenas a repetir rituais vazios, em vez de enfrentar aquilo que realmente precisa de mudar. E talvez seja também por isso que tantos jovens qualificados continuam a não ver futuro em regiões onde a política local parece ter ficado parada no tempo.

Porque, no fim, a conclusão acaba por ser simples: quando a política trata a desigualdade com gestos simbólicos, não está a resolvê-la, está apenas a perpetuá-la.

Adriana Temporão
Sobre o/a autor(a)

Adriana Temporão

Investigadora. Doutorada em Ciências Biomédicas na área de Parasitologia. Ativista social, ambiental e contra a precariedade dos trabalhadores científicos em Portugal.
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