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A política de imigração de Trump é assassina e a nossa também

Se criticamos os “campos de concentração” na fronteira entre o México e os EUA, o que dizer das condições dos campos de refugiados da Europa?

Imagino que tenha acontecido a muito mais pessoas… Demorei muito tempo a enfrentar a fotografia de Óscar, de 25 anos, e Valeria, de 28 meses, que morreram afogados no Rio Grande pelo sonho de comprar uma casa. Impressionou-me muito ver pai e filha abraçados. Indignou-me muito saber as razões da sua morte.

A política de imigração de Donald Trump é assassina. A fotografia de Óscar e Valeria Ramírez afogados na fronteira entre os EUA e o México apenas veio iluminar a política de tolerância zero de Trump na imigração. “Build the wall!”, gritava-se nos comícios dos Republicanos, e o resultado dessa muralha cifra-se em centenas de mortos e em centenas de milhares de pessoas detidas em condições desumanas.

Só em maio deste ano, foram detidas cerca de 150 mil pessoas na fronteira entre o México e os EUA. A Guarda Fronteiriça norte-americana já veio dizer que o “sistema colapsou” e Trump respondeu que quer uma fronteira ainda mais dura, em colisão com os tribunais e o Congresso. Para o presidente dos EUA, as famílias e as crianças da Guatemala e das Honduras que fogem da morte são um perigo para a segurança interna.

A democrata Alexandria Ocasio-Cortez não teve dúvidas em classificar estas instalações como “campos de concentração”, entrando em polémica com congressistas republicanos. E, de facto, nos últimos dias têm sido conhecidas as condições destes campos de concentração em que as pessoas detidas na fronteira são mantidas. Bebés e crianças são separados das suas famílias, as crianças são detidas sem nenhum acompanhamento e há informações de vários menores mortos que estavam sob custódia (ver aqui).

Há documentos oficiais que dão conta de condições sub-humanas nesses campos de concentração para crianças, com alimentos estragados, celas semelhantes a canis, sobrelotação das celas e armazéns onde não há camas nem cobertores ou escovas de dentes e onde não se desligam as luzes em momento algum do dia. É tortura, não há outra palavra.

Com o fluxo das travessias a crescer, a situação vai agravar-se nos próximos tempos e o número de mortos da política de migração de Trump vai aumentar. É inaceitável. Mas a política de Trump é o espelho negro da política europeia de migração e se nos indignamos com a imagem de Óscar e Valeria afogados no Rio Grande, não podemos esquecer a fotografia Aylan Kurdi afogado no Mediterrâneo.

Miguel Duarte, o jovem que pode enfrentar até 20 anos de prisão por ter salvado dezenas de pessoas no Mediterrâneo, explica a aflição de quem tenta atravessar o mar: “estas pessoas não vêm por escolha própria. Uma mãe nunca deveria ter de pôr os seus filhos num barco em mar alto, com tão poucas probabilidades de sobreviver”. Tal como o Rio Grande, o Mediterrâneo é um cemitério.

Este fim de semana Carole Rackete, capitã do Sea Watch, foi presa por desafiar a política de imigração do ministro italiano de extrema-direita Salvini, ao resgatar 53 pessoas no Mediterrâneo. Carole Rackete é alemã, tem 31 anos e há três que resgata pessoas no Mediterrâneo; para Salvini o que ela fez foi “um ato de guerra”.

E se criticamos os “campos de concentração” na fronteira entre o México e os EUA, o que dizer das condições dos campos de refugiados da Europa? Em 2018, a Médicos do Mundo considerou o campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, como o “pior campo de refugiados do mundo”, onde “até as crianças de dez anos tentam o suicídio”.

Mas se se conhecem as más condições nos campos europeus, não se conhecem as condições dos campos de refugiados na Turquia e em países do Norte de África, a quem a União Europeia paga mais de três mil milhões de euros para manter os refugiados fora das suas fronteiras.

A Amnistia Internacional publicou em 2017 o relatório “Uma rota para o desespero: Impacto dos Direitos Humanos do Acordo UE-Turquia”, dando conta que o acordo deixou “milhares de pessoas expostas a repugnantes e inseguras condições nas ilhas gregas” e a deportações ilegais para a Turquia, numa “flagrante violação dos seus direitos e da lei internacional”.

Se nos indignamos com a construção de muros e a criação de campos de concentração na América do Norte, indignemo-nos com o que se passa no Mediterrâneo e com as condições dos campos de refugiados na Europa.

Artigo publicado no “Jornal Económico” a 1 de julho de 2019

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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