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Poirot

Poirot, o famoso detective belga, foi contratado para descobrir os autores dos vários crimes que andam a acontecer todos os dias na Europa.

Esta aventura passa-se num Verão tenebroso e lúgubre! A primeira coisa que Poirot constata é que está perante gangsters, criminosos violentíssimos, centuriões de crueldade ponderada. Não são cruéis em ataques de fúria. É uma crueldade sensata. De uma sensatez delinquente, gelada e tensa, justificada com autoridade.

Poirot olha em volta e vê a maioria das pessoas intoxicadas pelo enxofre da informação. Ideias sebosas, por lavar, que só a aglutinação de sebos antigos aguentam de pé, saltam aos quilos de televisões privadas e públicas. Comentadores mecânicos em justificações e améns oferecem certezas neste tempo incerto, babados de pompa e de palavras fáceis, a estourar de um maldoso e maldito senso comum, na certificação de pergaminhos neoliberais tão pulhas que até a desfaçatez se acanha.

Poirot é um detective metódico. Aparece sempre muito penteado e de bigodes milimetricamente encerados. Gosta da Europa e gostava da União Europeia, sobretudo daquela União Europeia que ostentava uma desusada compulsão para a ordem, que se entretinha com o formato dos pepinos e produzia tratados sobre o tamanho das batatas.

Agora não. Demasiado crime à solta, demasiados criminosos por punir, sequestros vários, torturas indizíveis!

Um punhado de instituições, uma espécie de clubes privados dos padrinhos europeus, reúnem ministros e ex-ministros e futuros ministros. Poirot abana a cabeça. Alguns deles têm processos-crime, fraudes curriculares, cumplicidades brutais em lavagens encardidas de dinheiros escondidos. A bem dizer não há ali ninguém que virado do avesso não esconda qualquer coisa.

Línguas de víbora, vibrantes e vibráteis são utilizadas por estes procuradores do sistema mundial de extorsão que dá pelo nome de banca. Trata-se de gente expressamente comprada e adestrada para a especulação fácil a refulgir de números indecifráveis e rancorosos. Poirot recorda Barroso.

Poirot investiga. Na net. Wolfgang Schäuble. Nascido em 1942, Friburgo, Alemanha, filho de Karl Schäuble e Gertrud Göhring.

Poirot franze o sobrolho. Göhring?

Nasceu, portanto, durante a guerra. Os pais pertenceram àquela geração que se afirmou a encher praças de braço estendido, arreado de braçadeira com suástica; que consentiu, coabitou e festejou o holocausto; que depois sentiu na pele a acidez da derrota; àquela geração que perdeu a guerra, e a quem foi perdoada na dívida; que se viu atolada de dólares com o plano Marshall; que é avó ou bisavó das que hoje se sentem roubadas com qualquer perdão da dívida grega, com a qual, aliás, têm lucrado que nem párias!

Poirot decidiu ir à Grécia. Assistiu, surpreendido, ao referendo. Aclamou a coragem grega e a sua determinação. Murmurou para si mesmo, oxi, oxi. E então viu a Grécia a passear-se pelas ruas do desejo e a recusar o beco da aflição.

Primeiro resultado da investigação: a dignidade perdida da Europa estava na Grécia.

Contudo, nem Poirot, aquele detective inteligente e perspicaz, contava com a imediata resposta europeia, brutal, ferina e vingativa. A vingança é um prato que se serve frio, constatou um Schäuble medonho de determinação revanchista. Não basta haver vencidos. É preciso que os vencidos sejam apresentados como perdedores profissionais.

Segundo resultado da investigação: o sistema nervoso central do despudor, do gangsterismo mais primário, tem sede nas instâncias primeiras desta europa desbragada e ordinária, onde o vale tudo substituiu a civilização. A palavra democracia anda doente, aos tombos, anémica, de sapatos apertados, transformada num pano de cenário que sobe e desce conforma convém.

Doeu-lhe pensar em Bruxelas com a sua Grand Place, aquele íntegro território de erudição arquitectónica, onde Marx passeou. Que mágoa, ver agora a cidade dando guarida a uma coisa sinistra chamada Eurogrupo, que por ali passa na chafurdice quotidiana. Nunca como agora se chafurdou tanto na lama do financeirismo. Nunca, repete, nunca, se mentiu tanto e com tanta insolência. Aliás tudo assenta num férreo património de trapacices.

Terceira conclusão da pesquisa: isto, o que se está a passar, só é possível porque a cumplicidade de quem devia ser aliado é vergonhosa e indesmentível.

A esquerda tem hoje trevas, muitas trevas na alma, pensa. De vez em quando há um raio de sol a tentar pular. É preciso trovejar. As velhacarias que foram feitas são demasiadas. Exigem resposta. Trovões, relâmpagos, tempestades. Há hoje uma nova ética à solta. A ética da selvajaria mais grotesca!

Poirot lê o seu relatório antes de o assinar.

Escreve por fim a última conclusão: nada disto é definitivo. Tudo pode mudar. Tal como Bruxelas não entende o alfabeto grego, também nunca entenderá o alfabeto emocional das grandes perdas. E esse é soletrado neste momento não só pelos gregos. Ouve-se em toda a parte.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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