Quando alguns pensadores denunciam o neoliberalismo como uma combinação dos mais poderosos sectores do capital, para pressionar os diferentes governos demoliberais a obedecer aos seus ominosos interesses, os seus detratores procuram denegri-los, acusando-os de extremistas de esquerda e de outras adjectivações do género.
A ideologia propalada pela chamada escola de Chicago, engendrada por Milton Friedman e George Stigler, tendo por base a privatização de tudo o que possa gerar lucros, pela liberalização dos preços e por uma inflação baixa, está hoje a corroer os princípios integradores da democracia.
Esta visão ideológica, depois da Indonésia e do Brasil, foi testada no Chile, nos anos 70, após o golpe de Pinochet e em muitos outros países da América Latina, sendo também adoptada nos EUA de Ronald Reagan e na Inglaterra de Margaret Thatcher, neste caso destruindo de forma violenta e autoritária toda a organização dos trabalhadores a começar pelos sindicatos mineiros. São conhecidos os efeitos desta visão económica na sociedade do nosso tempo, que de uma forma ainda mais insidiosa está a estender-se a todo o mundo capitalista.
Na reunião dos maiores banqueiros em Sintra, Christine Lagarde, representante do Banco Central Europeu, Jerome Powell, da Reserva Federal Americana e Andrew Bailey, do Banco de Inglaterra, afirmaram que a causa da inflação e o motivo para o aumento das taxas de juro eram os salários e um mercado de emprego forte.
Esta declaração, ao melhor espirito de Chicago, equivale a defender a existência de um “exército de mão-de-obra de reserva” de desempregados e a manutenção de salários baixos para controlar a taxa de inflação. Para eles o mais importante desígnio é o aumento dos lucros do capital, numa atitude completamente cega e surda aos problemas sociais que essa visão provoca, e às situações de miséria em que submergem as populações.
Estes banqueiros, que ninguém elegeu, arrogam-se ao direito de ditar as leis que os governos nacionais devem cumprir, sob pena de lhes dificultarem os financiamentos com juros elevados.
Convém ter em conta que a Senhora Christine Lagarde, ex-dirigente de um partido de direita Francês, teve, quando responsável no FMI, o mesmo tipo de posicionamento, face às economias nacionais. Recordemos o que disse dos cidadãos do sul da Europa e dos portugueses em especial. Toda a visão económica desta senhora é claramente neoliberal.
Os governos nacionais, eleitos pelos seus povos, tornam-se impotentes para lidar com tão doutos sábios, mas são aqueles que têm de enfrentar as nefastas consequências económicas, sociais e políticas, que tais decisões provocam.
De qualquer modo, quando se aufere como a Sra. Lagarde mais de 400.000 euros anuais, é muito fácil falar em baixar salários, como o fez no tempo da Troika, onde como é sabido o salário médio não passa de 1.600 euros e o salário mínimo se fica pelos 800 euros. Incongruências típicas de burocratas muito bem pagos. Mas há em Portugal quem defenda tais ideias, entre outros o ex-ministro das finanças, Fernando Teixeira dos Santos.
A arrogância dos burocratas da Comissão Europeia e, por maioria de razão, do Banco Central Europeu, necessita ser confrontada com os representantes do povo, pelo que é válida a proposta avançada por alguns economistas e dirigentes políticos, em convidar Christine Lagarde para uma sessão do Parlamento Nacional, a fim de ouvir da boca dos deputados, como representantes do povo, o que estes pensam da actuação do BCE. Que tal convidá-la a viver em Portugal com o salário mínimo ou até o médio?
As declarações do primeiro-ministro, António Costa ou do Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa e até do presidente do PSD, Luís Montenegro, todos manifestaram a sua discordância face aos benefícios do contínuo aumento das taxas de juro do BCE, parecem ser feitas mais para uso interno dos respectivos eleitorados, do que para as instâncias internacionais. Deveriam exigir a responsabilização da Comissão Europeia pela aplicação de tais políticas.
É caso para questionar quem controla o BCE e qual é o papel dos países integrantes da União Europeia. Será que a economia não devia estar submetida à política e não o contrário?
A primeira preocupação dos dirigentes nacionais deve ser as questões da qualidade de vida dos seus concidadãos.
Inesperadamente, ou nem por isso, a vice-governadora do Banco de Portugal, Clara Raposo, não tem sido tão perentória na denúncia dos malefícios dos aumentos de taxas de juro. As explicações que dá são muito próximas das avançadas pelo BCE.
São estas instâncias informais de governação, nesta era de globalização e sobre quem não é possível estabelecer qualquer controlo democrático, que de facto controlam a economia nos países capitalistas.
Desde há bastante tempo que especialistas em economia vêm dizendo que as causas do aumento da inflação não são os salários, mas os lucros especulativos e escandalosos que a Banca e os grandes grupos económicos estão a auferir, sobretudo nos períodos de crise.
As afirmações, tantas vezes proferidas, de que a política não pode submeter-se aos interesses da economia ou da finança, fazem todo o sentido em democracia, nomeadamente em países como Portugal onde ainda imperam baixos salários e acentuadas desigualdades. Nada disso se consegue sem afrontar o poder exercido por instâncias internacionais discretas, para não dizer ocultas, que ninguém conhece ou escolhe. São estes os verdadeiros inimigos do Estado Social e da Democracia.
E o que fica dessas políticas? Pobreza, falta de investimento na saúde, na educação, no ambiente, na habitação e na Justiça. Fica o medo do futuro e uma enorme desesperança, um verdadeiro caldo de cultura para a extrema-direita. Será num mundo assim, sem futuro, que queremos continuar a viver?