O fim do mês de dezembro significa juntar a família e amigos, criando um espaço de comunhão e partilha cheia de amor, doçaria e música intemporal. Ignorando por momentos todo o cenário económico-político que se vai deteriorando por todo o mundo, surge aqui uma centelha de esperança e comunidade. Porém, nem sempre é assim, nem sempre as pessoas se conseguem sentir confortáveis em casa e muitas nem sequer têm um local para chamar de casa. Existe assim uma preocupação de micro-escala que rapidamente se forma um problema em macro-escala.
A família enquanto instituição desempenha um papel fundamental nesta época, obrigando a uma reunião anual dos mais próximos aos mais afastados membros desta. Se para alguns o Natal representa uma comunhão cheia de histórias engraçadas e de pequenas grandes desavenças durante o jantar de consoada, para outros Natal é sinónimo de isolamento, bullying e exclusão. As pessoas queer, racializadas e/ou migrantes são dos mais fáceis alvos destes sentimentos.
No caso das pessoas queer, estas são sistematicamente postas de lado, vítimas de comentários absurdos e desinformados, ou até completamente afastadas de um espaço que deveria ser seu também. A exclusão de pessoas queer em eventos familiares não só reforça estigmas e discriminações, como pode ter um impacto devastador na saúde mental e emocional. A rejeição, especialmente por parte da família, solidifica sentimentos de isolamento, ansiedade e até depressão, perpetuando uma cultura de exclusão que impacta toda a sociedade. O Natal, que deveria ser uma época de alegria e partilha, pode-se facilmente tornar um período de angústia para aqueles que não se sentem aceites por quem são.
Reconhecendo este como um problema que vai para além do microcosmos familiar, existe aqui uma responsabilidade de vários setores da sociedade, o setor da educação tem um papel essencial na formação de jovens com valores de inclusão e respeito, promovendo desde cedo a desconstrução de preconceitos e abordando com naturalidade as diversas formas de ser e de estar. A comunicação social tem também um dever público e uma responsabilidade acrescida de humanizar estas existências, garantindo discussões que primam por uma maior aceitação no seio familiar.
Num país como Portugal onde tudo isto ainda falha e ainda é debatido como ideológico, são ainda fundamentais para aqueles que encontram rejeição no núcleo familiar, as comunidades locais e redes de apoio. Estas tornam-se verdadeiros pilares, oferecendo espaços seguros de partilha e aceitação, reconhece-se especialmente um papel essencial das Organizações Não Governamentais, como a ILGA, que todos os anos constroem alternativas para um acolhimento de pessoas queer nestes dias, onde o que se mais quer é espalhar amor e companhia. Não sendo a única, este trabalho ilustra precisamente uma noção de comunidade apoiada na ideia de “família que se escolhe”.
Assim, é fundamental promover a aceitação e o respeito mútuo dentro das famílias, cultivando um ambiente onde todos se sintam amados e respeitados, independentemente da sua orientação sexual, identidade de género. Apuram-se muitas responsabilidades que perpetuam o que foi referido, como a presença do pudor familiar, um sistema de educação desinteressado e a falta de empatia dos meios de comunicação social. É preciso desconstruir tudo isto e formar uma comunidade verdadeiramente inclusiva do micro para o macrocosmos. O Natal deve ser uma oportunidade para unir corações e mentes, celebrando o amor e a diversidade que enriquecem as nossas vidas.