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Pode haver amor, mas não há cabana

Os jovens não precisam de políticos – católicos ou não – a exigir maior participação na vida. Os jovens de hoje precisam de casas, de conseguir pagar a conta do supermercado e de salários que lhes permitam um pouco mais do que sobreviver sem ter de trabalhar 12, 14 ou 16 horas por dia.

Depois de Costa, Marcelo e Moedas procurarem “capitalizar”, cada um à sua maneira, mais bicos dos pés, menos bicos dos pés, o seu papel na organização das jornadas da juventude católica, é altura do banho de realidade. E ele chega, em números, divulgado pela insuspeita consultora Deloitte.

Segundo os números mais recentes da Deloitte, em apenas um ano, as condições financeiras dos jovens trabalhadores em Portugal pioraram substancialmente, com 44% da chamada “Geração Z” – nascida entre 1995 e 2004 – e 31% dos denominados “Millennials” – nascidos entre 1982 e 1994 – a ver-se obrigada a ter dois ou mais empregos para conseguir sobreviver.

Não se trata de viver, fazer planos ou estruturar o futuro. Sobreviver, ou seja, viver o dia-a-dia. Um após o outro.

De acordo com aquela consultora, citada pelo jornal “Expresso”, quase 50% destes jovens trabalhadores sente ansiedade e stress em contínuo, não conseguindo chegar ao final do mês com qualquer folga orçamental e tendo de contrair os gastos para conseguir pagar as despesas fixas mensais.

Duas gerações sem expectativas e que, segundo a consultora, não têm quaisquer perspetivas de comprar casa nem constituir família, dada a incapacidade de assumir compromissos financeiros.

Muito mais que clichés para partilhar nas “redes”

Após uma semana de fervor religioso católico como há muito não se via, numa gigantesca operação de lavagem de imagem da igreja católica apostólica romana, com o alto patrocínio do Governo português, da Presidência da República e da Câmara Municipal de Lisboa, financiada pelos contribuintes – católicos ou não -, eis que a realidade vivida no país choca com o faz-de-conta dos últimos dias.

Porque, ao contrário do que se fez passar na última semana, os jovens não vivem de clichés e frases feitas partilháveis nas redes sociais. Não vivem de evocações vãs de esperança ou de amor, seja com ou sem ondas. Infelizmente, não basta amor e duas ou três histórias de embalar, mais ou menos mitológicas. Porque pode haver amor, mas não há cabana.

Os jovens não precisam de políticos – católicos ou não – a exigir maior participação na vida, na sociedade, na política ou na religião. Os jovens de hoje precisam de casas, de conseguir pagar a conta do supermercado e de salários que lhes permitam um pouco mais do que sobreviver sem ter de trabalhar 12, 14 ou 16 horas por dia.

Não tenho qualquer animosidade por este Papa, aliás, é, de longe, o melhor das últimas cinco décadas, e tem contribuído, mesmo com as limitações do status quo a que está agrilhoado, para o debate de assuntos que, até à data, foram absolutos tabus para a igreja católica e para o establishment que a sustenta.

Não vou sequer entrar no debate estéril da fé ou da falta dela, dos dogmas ou da autenticidade de santos e milagres. Mas, a verdade é que se fossem gastos mais de 80 milhões de euros dos contribuintes num evento religioso muçulmano – ou hindu, ou budista, ou adventista, whatever -, havia um golpe de estado em Portugal.

Isto, independentemente do “retorno” mais ou menos discutível que o evento terá trazido ao país, nomeadamente à cidade de Lisboa.

Sr. primeiro-ministro, si se puede, yes we can?

O que todos ficámos a saber – jovens e menos jovens – é que, durante uma semana, foi possível transportes gratuitos para mais de um milhão de pessoas, refeições com preços especiais em todos os mini, super e hipermercados, alguns abertos durante toda a noite, e um teto para que ninguém ficasse ao relento.

Se tudo isto foi possível, mostrando a milhão e meio de visitantes sem dinheiro que somos um país de sonho, porque é que a geração que nasceu entre 1980 e 2005 em Portugal não tem direito a este sonho?

Foi possível “acomodar” os sem-abrigo que teimavam em montar tendas ao longo da Almirante Reis, em pleno coração de Lisboa, mesmo à vista de “toda a gente”. Foi possível limpar um terreno gigantesco às portas de Loures e torná-lo útil, sem lixo, nem contentores.

Foi ainda possível fechar contratos em tempo recorde e montar uma operação de segurança sem precedentes no país, mobiliando polícia, bombeiros, proteção civil, forças militares e profissionais de saúde.

Se tudo isto foi possível, mostrando a milhão e meio de visitantes sem dinheiro que somos um país de sonho, porque é que a geração que nasceu entre 1980 e 2005 em Portugal não tem direito a este sonho?

E continua obrigada a ter dois ou mais empregos para conseguir sobreviver, sem conseguir comprar casa, pagar as contas do supermercado ou da farmácia ou sequer pensar em ir de férias? Afinal, se puede ou não, sr. primeiro-ministro?

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Jornalista
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