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Pior do que não ter recursos públicos, é ter e não usar

Em Portugal, a cultura científica é ainda escassa. Que isso seja uma realidade que precisa de ser combatida, estamos de acordo. Que o próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sofra de falta de ação pelas mesmas razões, é mau.

Primeiro, foi o Instituto de Medicina Molecular (IMM) que se mostrou disponível para aumentar a capacidade de testes de covid-19. Seguiram-se outras entidades científicas como o I3S do Porto ou o Center of Neuroscience and Cell Biology (CNC) de Coimbra, apenas para dar alguns exemplos. A notícia orgulha qualquer um e a população portuguesa só pode estar agradecida à comunidade científica por isso. Mas, por que razão, não foram convocados por parte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior anteriormente?

É o conhecimento científico que nos tem permitido responder à pandemia de forma mais assertiva. Os líderes políticos que preferiram ignorar os factos centíficos sobre o novo coronavírus e apoiar-se em fake news sobre o problema colocaram as suas populações a pagar bem caro a fatura de tamanha negligência. Os Estados Unidos da América já ultrapassaram a China em números de casos, o Brasil de Bolsonaro mantém-se apostado em apelidar a pandemia como “gripezinha” e Boris Johnson, no Reino Unido, decretou quarentena geral quando o país já tinha milhares de infetados em poucos dias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já veio dizer que as orientações, nesta fase, é aumentar a capacidade de testes à covid-19. Nas palavras do seu presidente, “testar, testar, testar” acabou por se tornar a nova palavra de ordem para as autoridades públicas de cada Estado. Todos os esforços são bem vindos. Se os temos nos Centros de Investigação, só temos de os usar. E o que é preciso, então?

Do ponto de vista de material, é necessário haver kits e reagentes para a realização dos testes. O IMM já resolveu esse problema e outros laboratórios apresentam a mesma capacidade. Para além do material de laboratório, é imprescindível possuir termocicladores em grande quantidade. São justamente estas entidades que reúnem maior número de material tecnológico com essas características. O terceiro critério – e não menos importante – é a massa crítica para acionar o plano. Os milhares de investigadores nas áreas das Ciências Biomédicas estão mais do que aptos, com formações curtas, a dar resposta com a qualidade que é pedida nesta emergência social. E é justamente isso que estes institutos fizeram: reuniram o material necessário e mobilizaram a comunidade científica

Para além da realização de testes, os investigadores serão essenciais noutras frentes de combate ao coronavírus. Uma delas é a desinformação e combate a fake news. Estes investigadores têm formação suficiente para fazer uma triagem da informação e saberem que fontes são credíveis. Nesta altura, mais do que nunca, a informação verdadeira é essencial. Reduz o medo e a desconfiança.

A investigadora Joana Almeida Palha, num artigo, já se tinha insurgido contra o silêncio nesta matéria. “Limitar a entrada da comunidade científica nesta luta é irresponsável e incompreensível”, escreveu, com autoridade, a investigadora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS). Aliás, o Bloco já tinha proposto uma ideia similar ao Governo: a mobilização de todos os laboratórios do Sistema Científico e Tecnológico Nacional para reforçar a resposta pública à pandemia.

A maioria da população talvez não conheça, em pormenor, o trabalho desenvolvido nestes laboratórios. Em Portugal, a cultura científica é ainda escassa. Que isso seja uma realidade que precisa de ser combatida, estamos de acordo. Que o próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sofra de falta de ação pelas mesmas razões, é mau. Pior do que não ter recursos públicos, é ter e não usar.

Artigo publicado em publico.pt a 29 de março de 2020

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
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