Está aqui

Perigos de um populista que quer ser Presidente

A corrupção mina a democracia? Mina, e o Paulo de Morais também.

O poder que tem Marine Le Pen, ou teve Berlusconi, é fruto do populismo que na Europa da crise do demoliberalismo tem sido pasto da direita e da extrema-direita. E por cá, enquanto Marinho e Pinto apanha os cacos, Paulo de Morais apresenta-se como o arauto do combate à “classe política corrupta”.

O jornalista Paulo Magalhães1 ao questionar Paulo de Morais se as generalizações que faz sobre a “classe política corrupta” não minam e desacreditam a democracia fez-lhe a pergunta que conta para um candidato à presidência da república. Paulo de Morais respondeu que não é o seu discurso, é “a verdade”. Engana-se ou engana, e desenganem-se: trata-se mesmo de minar a democracia.

São os entorses da ambiguidade salvífica que embalam o que conta: Paulo de Morais é um homem do PSD, foi poder pelo PSD, a quem já perguntaram pelos “nomes dos bois” sem resposta, a quem nunca perguntaram como quer ser Presidente da República e árbitro com uma Assembleia da República que é um “antro de corrupção”, quando todos os partidos são “interesses e negócios”, quando o único candidato digno de almoçar consigo seria Henrique Neto, porque os restantes “estão reféns dos poderes partidários e dos interesses”2.

Consta que Paulo de Morais está muito zangado com os seus por ter sido escorraçado, incluindo das listas de deputados do PSD. Não se alimentam suspeitas que só os próprios podem esclarecer, mas convida-se a um esforço para melhor entender os perigos que espreitam. E como o “populismo” está contaminado pela banalização, a proposta é que se acompanhe Paulo de Morais com aspetos de grelha de análise, que especialistas do tema têm construído, para levar a coisa a sério.

1. A componente antissistema e anti-partidos: além das já anotadas generalizações sobre partidos/interesses/negócios, registe-se que tal como a formação de tantos partidos “anti-partido”, que foram a eleições e disputaram a representação, Paulo Morais vê-se e é visto fora do “sistema” para “regenerar o sistema”3, mas vive dele e dentro dele - foi vice-presidente da câmara do Porto, quer ser Presidente da República e saiu do PSD há dois anos para preparar a sua candidatura;

2. A ventriloquia: sustentar uma coisa e o seu contrário, como retórica de esquerda e práticas de direita; o homem que luta contra os “corruptos” que “espoliam o povo” é o mesmo que foi responsável pelos despejos no Porto e que mandou os moradores do bairro de S. João de Deus irem ao túmulo de Salazar apresentar queixa pela legislação ao abrigo da qual a autarquia despejava os moradores4;

3. A revolta contra a elite: a “classe política”, e não os capitalistas; interessa a Paulo de Morais tratar os “bois pelos nomes” e denunciar todos os casos concretos que presumidamente conhece quando lhe é mais útil repetir à saciedade são todos/as “bois”?

4. O “complot”, os “maus” e o homem providencial, capaz de encorpar a raiva do Povo: para a fratura entre bons e maus, para a localização dos “inimigos” é preciso generalizar, criar suspeita, alimentar o ódio. Perguntas que tocam no âmago das emoções só podem ter respostas simples: quem são os “maus”? A “classe política”. Interessa-lhe que os/as deputados/as do Bloco de Esquerda se tenham desde sempre batido por alterações legislativas decisivas no campo das incompatibilidades, no enriquecimento ilícito ou em tantas outras propostas de combate à corrupção? Não, interessa-lhe criar ruído para colocar os/as deputados/as do Bloco de Esquerda e a candidata Marisa Matias no saco da “classe política”, ou seja, dos “maus”. Interessa-lhe que alguém perceba que às vezes fala de corrupção e outras tantas de coisas diferentes? Não, é tudo corrupção porque os “políticos”, a “classe política” é toda corrupta e anda a encher-se à conta do povo.

Se a corrupção mina a democracia? Mina, e o Paulo de Morais também.


1 Entrevista na TVI.

2 Observador, 13/1/2016.

3 Económico, 22/12/2015.

4 Público, 30/4/2003.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professora.
(...)