Está aqui

Pelos olhos do cidadão comum. Como tu ou eu

Este não é o país com que sonhei, o governo tornou-se exímio em prometer e protelar com uma retórica enganadora. Uma mão vazia, a outra cheia de nada.

Ponho-me no lugar do cidadão comum, no começo do dia. O noticiário é perturbador, em vez de ser inebriante, é demolidor. Nada de diferente relativamente aos noticiários do dia anterior ou das semanas ou meses desde 2015 quando acreditámos que um Governo PS iria procurar apoio na esquerda, ganhando com estes companheiros “de route” a coragem que não encontrava portas dentro. A “festa foi linda, pá” mas foi curta, não ganhou raízes, cedeu à pressão da direita, dentro e fora do PS. O PS de Costa não esteve interessado, faltou-lhe coragem, é mais cómodo perpetuar a mediocridade.

Estupefacta como cidadã comum, vejo o SNS estremecer; testemunho o ensino público a decair; a descentralização e/ou regionalização emperrada; a água que falta mas que foge a caminho do mar; a floresta desorganizada e um cadastro por concretizar; os aumentos “históricos das pensões”, ouço as promessas do Governo nas quais só acredita mesmo o PS. Com regularidade confrangedora, vejo comissões de coordenação serem nomeadas a torto e a direito e pergunto-me em que aplicam o seu tempo os membros do Governo, para que serve a Administração Pública na qual se podem encontrar excelentes técnicos, saber acumulado, muito conhecimento. O caso mais paradigmático foi o que se passou com a vacinação contra o COVID19. O Almirante Gouveia e Melo fez um belíssimo trabalho, ninguém põe em causa o seu desempenho mas, então, o Ministério da Saúde não tinha a capacidade para fazer aquele trabalho? A pergunta não é impertinente, é incontornável. O Ministério da Saúde, a começar no topo e vindo por aí abaixo, não dava conta do recado e antes que fosse tarde demais, vá de chamar alguém com perfil adequado. Por acaso, o Almirante provou como os conhecimentos de organização são sempre a peça chave, a vacinação foi um êxito, quando saiu – num lance muito mal explicado – as coisas voltaram a ficar bastante nebulosas. Para atenuar, digamos que não é fácil substituir uma personagem como o Almirante.

Tenho para mim que não é obra do acaso esta impossibilidade de, hospital após hospital, ter os serviços de obstetrícia abertos e a funcionar. De repente, o mapa de Portugal está todo coberto do aviso “Obstetrícia encerrada”. Que diabo de coisa é esta? No meio da desgraça, o Hospital de S. João (Porto) mantém-se firme repetindo a eficácia demonstrada durante a pandemia. Os seus técnicos não devem, percentualmente, ser mais do que noutros hospitais e não frequentaram cursos de medicina noutra galáxia. O que o S. João tem obviamente a mais, em termos absolutos e relativos, é a capacidade de organização, a determinação. Ah, pudessem os outros hospitais e os administradores hospitalares aprender alguma coisa! Não, não acredito que de repente, faltassem obstetras e ginecologistas e todo o pessoal especializado nesta área. O pessoal médico e técnico está cansado? Foram dois anos terríveis, de acordo, mas deu-lhes assim o baque completo e em simultâneo do Rio Minho à Ria Formosa? Estava eu a pensar que isto há coincidências inexplicáveis quando se começam a ouvir os primeiros desabafos de cariz financeiro. Ora, aí está, a razão das razões, um belo denominador comum a todos os profissionais. Afinal, com remunerações mais substanciais, a coisa se calhar compunha-se. Mas, acrescento eu, talvez nem se tivesse decomposto se as licenças para férias fossem autorizadas na base do estatuto da função pública. Isto é, os serviços têm de organizar e disponibilizar o respectivo mapa de férias e as férias não são gozadas quando se quer mas quando se pode garantindo que o serviço funciona com escalas, naturalmente. O pessoal hospitalar não está sujeito a esta regra de ouro?! A determinada altura desta vaga “obstetrícia encerrada”, os administradores hospitalares, a ordem dos médicos, médicos em geral, quase em uníssono, desatam a queixar-se dos baixos salários. Concordo, são baixos mas soa pouco ético partir para uma reivindicação que mais parece chantagem. Aos motoristas de pesados quando paralisaram o país, não hesitámos em definir a movimentação, agora as diferenças não são assim tão grandes. Se somarmos a isto, o conhecimento que temos da “mobilidade” dos médicos entre serviços públicos e privados, eles médicos não saem ilesos desta tempestade. Acresce uma pequena nota: comparando com a Europa, Portugal tem uma natalidade muito baixa, preocupante até mas, no entanto, tem uma percentagem de obstetras e ginecologistas muito superior a outros países europeus. Afinal, qual é o ratio ideal, muitos médicos, poucos bébés, será muito difícil dar as boas-vindas em segurança a um bébé num país que se atravessa em poucas horas? E se os médicos começassem por propor o estabelecimento de serviços adequados nos locais certos com as especialidades mais urgentes?

Para iluminar este cenário, também se chegaram à frente os hospitais privados. Que sim, que estão disponíveis para ajudar o SNS. Fico sem comentários perante tanto despudor. Os hospitais privados têm florescido mercê das dificuldades organizacionais e financeiras do serviço público. E o serviço público foi deixando cair para os privados o atendimento dos cidadãos. Drenar parece ser um termo justo. Em vez de haver investimento no serviço público, este foi-se encostando aos privados que garantiam a resposta, para quê o trabalho e o investimento? Os sucessivos governos não investiram o necessário mas a responsabilidade deste florescimento dos privados tem mais mãos. A começar pelos próprios utentes que, aos poucos, foram cedendo. As salas de espera do privado são elucidativas.

Não defendo os baixos salários para o pessoal médico porque também não defendo os baixos salários para a restante função pública. Porque é que os professores hão-de ganhar pouco? Porque é que os licenciados hão-de ganhar pouco? Porque é que todos os outros funcionários públicos hão-de ganhar pouco? Não se pode embarcar na revisão das carreiras hospitalares cedendo às diferentes pressões e deixar para trás todos os outros porque do seu exercício não dependem directamente vidas humanas. A seguir um raciocínio desta natureza, daqui a pouco estamos todos a mandar os nossos filhos estudar medicina, tudo o mais é inútil. Ou seja, a revisão das carreiras incluindo as remunerações deverão ser revistas, sim, mas para todos os funcionários públicos. É trabalho longo e duro, são muitos os parâmetros a considerar, uma tarefa de fôlego para hoje porque “amanhã é sempre longe demais”. Aqui, sim, vai ser necessária comissão de coordenação entre ministérios, sindicatos, ordens. Encontrar alguém à altura será muito difícil porque o desgaste já é enorme, a bola de neve cresceu imenso, as expectativas são do tamanho do país, os oportunismos são muitos, os interesses ainda mais.

A senhora Ministra da Saúde é mesmo um achado. Toda a gente comenta a falta de médicos, os baixos salários, os concursos que ficam desertos ou quase. Não interessa, lá vem mais um concurso nas condições vigentes. Não era tempo de primeiro rever carreiras e salários (e outros benefícios, não sei) e depois já com uma oferta cativante, abrir concursos? Demorava-se, talvez, mas a abordagem seria transparente. Seria uma reforma, não um remendo.

O SNS está muito doente. Um cidadão comum pode elencar uma lista de problemas pesados, será que o governo quer ouvir? Não quer, como não quer ouvir os professores, ou os funcionários públicos em geral, ou os pensionistas. No meu entender de cidadã comum, são poeira para os olhos esses aumentos “históricos” ou os apoios mensais para enfrentar a subida do custo de vida. Os aumentos eram “históricos” e veio a saber-se que as pensões até oitocentos e qualquer coisa virão a receber, mais ou menos 40€/mês a partir de Janeiro de 2023. Não se pode levar a sério, os membros do governo vão ao supermercado?! Até Janeiro faltam seis meses, “quem viver, verá”. Fica qualquer coisa de “histórico” mas não os aumentos tal como os apoios que anunciados para três meses, afinal acabarão ao fim do primeiro mês.

É tudo um enorme faz de conta mas bem vistas as coisas, a culpa não é exclusivamente do Governo ou do PS.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)