Mobilizarmo-nos agora pelo SNS é absolutamente inadiável. Não faltam declarações, artigos de opinião, pareceres técnicos. Mas aquilo que nós sentimos na pele não corresponde às promessas, entre a estratosfera governamental e a população existe um hiato insuportável. Não parece habitarmos a mesma longitude/latitude. Eles falam, mas de que falam eles?
Para o cidadão comum, poderia fazer-se um resumo das sucessivas intervenções dos vários responsáveis pelos sistemas de saúde, pelo SNS em poucas palavras: haverá mais recursos humanos (não se percebe donde vão sair já que as escolas apertaram os acessos e inverter a situação demora tempo), haverá mais meios técnicos e mais apoios financeiros. Às vezes usam o futuro (vamos …), outras vezes o pretérito (foi…) mas na prática, senhores, não se sente a diferença no presente. É como a economia, são anunciadas melhoras assinaláveis mas na casa dos portugueses não se sente nada. Sentir-se-á, talvez (futuro…), outra promessa.
O que nós precisávamos mesmo neste momento do Manifesto Mais SNS é que as fragilidades e problemas identificados pelos utentes fossem objecto de soluções palpáveis. Talvez se pudesse encarar a situação em dois patamares simultâneos, sendo um deles destinado a resolver aqueles aspectos que nos afectam no imediato e que nos desesperam enquanto o outro, a exigir mais estudo e tempo, ia avançando.
Comecemos com a disponibilidade do SNS na net. É para brincar connosco, não pode ser olhado doutra forma. Porquê SNS24 e My SNS?! O segundo comigo não funciona, uma branca. O site do SNS24 funciona mal, em circuito fechado, fazem-se perguntas, ele vai rodando e acaba onde começou. Nada. A nossa identificação, as receitas estão lá mas a marcação duma consultazinha, nada. Depois, já em desespero, tenta entrar-se na página de determinado centro de saúde. Temos, então, a missão (!), a morada e disse. Sem prosseguir, deixo a pergunta: na falta de atendimento telefónico, na falta de computador, o que sugerem, que nos desloquemos até ao centro? O SNS tem de começar por resolver o problema do contacto, do acesso. Prosaico, não ignoro, mas é o nosso dia-a-dia.
Em alternativa posso descrever outro cenário. A ida ao centro, a forma como somos recebidos. No meu centro, a recepção é feita por um segurança que a mim me trata por você (sorte minha!) mas a um imigrante desce de você para tu. O que é que queres? Trouxeste a identificação? Senta-te aí! Uma abordagem que continua de forma áspera, cartilha tipo DDT, enquanto o imigrante que não fala português e está ali a acompanhar a mulher grávida ou a olhar pelas crianças, já está completamente atordoado. Um gosto.
Para resolver esta falta de sensibilidade e de humanidade, não me parece que seja necessário muito mais do que uma boa organização. Formar os técnicos, incutir-lhes respeito pelos utentes, fazer de cada centro um local de acolhimento e não um local de desesperança. Cada situação por resolver, é um voto para a direita. Os governantes percebem isto, ou não?
A marcação de consultas é outra saga. Através do site do SNS não resulta, o centro não atende chamadas, ou se vai directamente ou se desiste. Para ir ao centro é preciso ter energia para o fazer, a idade e a solidão reduzem drasticamente essa alternativa, se o utente não se sentir bem, tudo piora. Os pensadores do SNS já se questionaram?
Quem consegue pagar, desiste quanto antes, passa para o privado. Mas o privado não é o SNS, disfarça como pode mas à medida que engole os serviços públicos vai revelando a sua verdadeira identidade. A aposta é no SNS pleno, vigoroso, pronto, eficaz e omnipresente dotado de estrutura global e pontual ao serviço da população. O diagnóstico é no SNS, o exame médico é no SNS, as análises, o acompanhamento. Longa vida ao SNS!
No imediato, o SNS tem de alargar o seu âmbito e considerar a inclusão da componente de apoio social. Não basta o diagnóstico, o comprimido, a análise. Para chegar ao contacto, ao acto médico, há um outro caminho a fazer que muita da população idosa, imigrante, menos escolarizada, percorre em sofrimento, antes da desistência. Sentiam-se sozinhos, agora terão a experiência da marginalização. Não podemos tolerar o abandono. Solidariedade precisa-se no SNS, muita.