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Pela VOX do CDS

O episódio folclórico da passadeira arco-íris na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, é sintomático.

O que os representantes do CDS de Arroios conseguiram fazer aprovar por unanimidade na Assembleia de Freguesia foi unanimemente destruído por esta nova versão espanholada "à lá VOX" do CDS.

Para homenagear a comunidade LGBTI no dia 17 de Maio (foi este o dia, em 1990, que a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças), nada melhor então do que retirar os esqueletos do armário. A doença do extremismo populista está à solta e o CDS procura arrumar-se à Direita, deixando o conservadorismo na gaveta, para soltar o Nuno Melo que tem em si. Cai assim por terra o pequeno percurso progressista de Assunção Cristas, caminho tão mal-amado no partido que nem precisou de perder eleições internas para perder terreno na liderança.

À medida que esbranquiça passadeiras para todos, recusando o simbolismo folclórico de uma passadeira colorida mas ilegal face às regras do trânsito interno do partido, os barões assinalados do CDS juntam-se aos sectores VOX para reclamar aquilo a que têm direito: o direito à convivência e à mudança de rumo. O partido que permite que a "Tendência Esperança em Movimento" evolua internamente com um líder, Abel Matos Santos, que defende que o 25 de Abril comemora "a liberdade de abortar, de mudar de sexo de manhã e à tarde", saudoso do tempo de Salazar em que "Portugal era um país a sério e governado por gente a sério", psicólogo clínico que considera que os homossexuais "têm mais doenças e sofrem mais", não pode queixar-se, um dia que não virá longínquo, de que a tendência vire poder ou cresça o suficiente para cindir com o partido para se autonomizar. Criar um monstro. Foi assim que o VOX espanhol surgiu, pela mão das pessoas às quais o PP espanhol deu guarida em nome da "velha" Espanha de cinzas. Nuno Melo, ao recusar o rótulo de extrema-direita ao VOX, sabe bem no que o CDS se está a tornar ou está a permitir criar. Estranho é que o CDS de Cristas vá atrás.

Como uma VOX colorida entre as mãos de uma criança, este CDS lava mais branco. Quando o próprio PP espanhol acusa o VOX de extremismo à Direita, é quase cândido ver como Nuno Melo defende a família, secundado por todo o partido (mesmo as correntes mais liberais do CDS...), ao não considerar de extrema-direita um partido racista e xenófobo, ultranacionalista, que pretende acabar com a lei de violência de género, liberalizar o porte e uso de armas, implodir as autonomias, perseguir imigrantes, construir muros "intransponíveis", ilegalizar partidos e organizações independentistas e fazer tábua rasa da Constituição espanhola. Este é o "novo" CDS, o carro-vassoura da democracia-cristã que deixa os "bastas e chegas" partirem primeiro para varrer o caminho.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 3 de maio de 2019

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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