Está aqui

Pé ante pé, sem alarde, sem perder a oportunidade

Os neonazis estão aí, talvez com organização incipiente mas nem por isso menos perigosos. Silenciosos e insidiosos, tornam-se motivo de conversa, sob um véu de chalaça. Sobreviverão ou não conforme a nossa atitude.

A ida de um neonazi, criminoso sobejamente conhecido, senhor de um currículo criminal e prisional notáveis a um programa em directo da televisão tornou-se, com razão, motivo de muitos comentários e abaixo assinados. Muitos contra, outros invocando a democracia, nem tanto. Tudo a chover no molhado. Estivéssemos, como sociedade, conscientes e atentos, o nome e contacto deste neonazi não constaria da carteira de candidatos a entrevistas pela comunicação social, fosse no canal de televisão em causa ou noutro qualquer meio. Estou pouco ralada com o rótulo que me possam querer colar por me manifestar contra; importa-me, e denuncio como posso, esse joguinho “à democracia” que se desenrola sem que nos interroguemos. Entre os jornalistas, tomei atenção a dois oriundos da mesma área política, um contra, outro a favor o que não deixa de ser curioso mas não referirei nomes. A minha preocupação é com aqueles nossos concidadãos muito solteiros, ligeiros, bem dispostos (ou esforçando-se por parecer isso), num tom chocarreiro que exibindo impunemente uma ignorância que nos envergonha, utilizam as ferramentas à mão (no caso vertente, um programa de televisão) para fazerem propaganda de ideias que, com muita habilidade, subvertem a democracia. O próprio sistema que lhes permite exprimir os seus ideais. Sem contraditório, dando toda a linha ao convidado, podemos pensar outra coisa? O apresentador do canal televisivo visado não é uma criança, viveu os últimos anos do regime fascista já como jovem adulto, não pode argumentar que não viu, não ouviu, não leu. Não sabe?! A chocarrice é um modo de estar: puxam-se os assuntos sérios, dá-se-lhes um tom aligeirado, se possível ridicularizando os factos e/ou personagens e, entre chalaça e alguma ironia, desmontam-se as situações fazendo sobressair um cenário minimizado, onde se mistura tudo para voltar a dar embrulhado em papel pardo. Nestas situações, o tempo de reacção é mínimo e, nas gargalhadas que se soltam, fica a pairar uma imagem ridicularizada. Como tudo costuma ser feito em ambiente “social”, tipo nuvem passageira, a conversa rapidamente toma outro rumo, a estupefacção assenta arraiais. Neste programa de televisão em busca de audiência, com plateia paga, quem ficou estupefacto estava em casa, sem hipótese de responder. Entre os velhinhos (como foram classificados por outro comentador que ouvi), assapados na plateia do canal televisivo e sem perceberem a manipulação diária que os usa, talvez alguns se tenham indignado. Ou seja, o convite não é aceitável, a impreparação do programa é insultuosa, a indignação provocada é absolutamente compreensível porque, entre fósforos e matéria inflamável, estava lá tudo.

A este propósito, vale a pena sugerir a visualização do primeiro episódio da série que domingo à noite estreou na RTP2. Produção alemã, duríssima que nos envolve do primeiro ao último minuto relatando a organização das milícias neonazis na Alemanha pós reunificação. Um pedaço de história contemporânea nesta Europa explosiva, nas vésperas de eleições para o Parlamento europeu, cuja figura central bem podia ser o neonazi cá do burgo. A memória é curta, torna-se mesmo indispensável refrescá-la.

Mas o burgo está cheio de refrescamentos. Em Santa Comba Dão, a câmara liderada por autarca do PS, vai inaugurar um Museu sobre o Estado Novo, um centro interpretativo. O inferno está mesmo cheio de boas intenções! Sendo municipal, o museu é público, isto é, vai ser pago com o nosso dinheiro e eu pergunto-me porque motivo havemos de contribuir para um museu sobre o Estado Novo?! Se fosse um museu sobre a história portuguesa contemporânea, com uma sala ou mais dedicadas ao Estado Novo, muito bem. O Estado Novo tomou conta deste país cerca de 50 anos, temos de o perceber e analisar para que não esqueça, evitando que se repita. Mas pôr de pé um museu dedicado ao Estado Novo (o próprio nome escolhido), aproveitando a coincidência da terra ter sido o local de nascimento do chefe, parece-me uma visão distorcida e uma utilização oportunista da bondade de uma sociedade democrática perante um período sinistro da história portuguesa. Outra vez, a utilização da democracia para disfarçar interesses inomináveis. O autarca de Santa Comba devia descer à terra, e não descendo por vontade própria, alguém que o apeie. Entre a promessa deste monumento e a pergunta feita na televisão ao neonazi sobre a falta de um caudillo hoje no país, talvez se identifiquem mais semelhanças do que diferenças. Até agora, apenas estamos a escutar o prelúdio de uma peça que ameaça tornar-se ensurdecedora.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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