A indústria de armamento, chamada complexo militar-industrial, juntamente com outras ligadas à defesa, é presentemente uma das criadoras de lucros mais poderosas do mundo.
Não é difícil estabelecer as ligações entre os interesses dos produtores de armamento, dos vendedores e dos traficantes do mesmo e a eclosão de conflitos militares espalhados pelo planeta.
Segundo estudos divulgados pelo Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz, com sede em Estocolmo, as indústrias de armamento movimentaram em 2022, um total de cerca de 1.840 Milhões de dólares.
Os Estados Unidos da América são o país com maior nível de gastos no sector da defesa, a sua despesa em equipamento militar representa cerca de 39% do total mundial. Seguem-se a China, a Rússia, a Alemanha, a India, a Arábia Saudita, o Reino Unido e Israel.
Neste mundo, pleno de opacidades, em que se movem os interesses do complexo militar-industrial, em sintonia com os comerciantes e traficantes, a mais das vezes criminosos, contribui para a proliferação indiscriminada de armas, para a existência de um poderoso campo de corrupção, estimado em cerca de 40% da totalidade desta forma de crime a nível mundial, e consequentemente para a deflagração fácil de conflitos.
Em Dezembro de 2014 foi estabelecido um Tratado de Comércio de Armas, com vista a uma regulação do comércio de armamentos. É curioso que os mais importantes e mais relevantes exportadores não o ratificaram, preferindo o estado de opacidade, com o seu quê de criminoso, em que o ramo sempre viveu.
Os Romanos tinham um dito que utilizavam, “Si vis pacem para bellum”, o que significa, se queres a paz prepara a guerra. Este é o lema de todos os belicistas, não deixando de ser uma perigosa mentira. O que a guerra traz é destruição, violência e morte. A paz só aparece com conversações e entendimento. O poder da dissuasão não se consegue pelo acumular de armas, pelo medo, mas pela diplomacia aberta e sem alçapões.
Nos nossos dias em que o arsenal mundial é suficiente para acabar várias vezes com a vida na Terra, em que os armamentos existentes têm um poder destrutivo gigantesco e estão disseminados por diversos países, não garantindo segurança a ninguém, só a diplomacia hábil pode estabelecer algum sentido de proporção equilíbrio.
A ONU, Organização das Nações Unidas, mesmo fragilizada, continua a ser a voz da paz para estabelecer acordos que impeçam o crescendo de violência entre estados.
Responsabilizar a ONU por manter o equilíbrio entre as nações, mas não lhe atribuindo meios para o conseguir, não passa de uma hipocrisia, como muitas que enxameiam a cena internacional.
A Carta das Nações Unidas determina que a Assembleia Geral é a instância máxima da organização, mas estabeleceu que o poder último reside no Conselho de Segurança.
Ora acontece que muitas das resoluções aprovadas na Assembleia Geral não passam no Conselho de Segurança, pelo exercício do poder de veto atribuído aos países vencedores da II Guerra Mundial. Estes constrangimentos inviabilizam de forma recorrente uma intervenção forte da ONU, tornando-se um obstáculo à sua afirmação.
É assim que assistimos à dualidade de critérios, como o que se verifica no caso dos conflitos da Ucrânia e da Palestina, um tratamento internacional completamente diverso.
No caso da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, denunciada por uma grande parte dos países, provavelmente por ter ocorrido na Europa, tem sido um grande apoio político, financeiro e militar, usando o pretexto de impedir as loucuras expansionistas de Putin. Mas também sabemos que esta guerra tem sido um bom negócio para os fabricantes e vendedores de armamento, americanos e alemães, entre outros.
Mas diverso é o que ocorre na faixa de Gaza. Depois do bárbaro ataque do Hamas, a resposta por parte do poderoso exército de Israel foi devastadora. Até agora matou mais de 35.000 pessoas, das quais muitos milhares de crianças e mulheres e destruiu totalmente as cidades de Gaza, aparentemente dizem, para perseguir o Hamas. Ora, na realidade, tem visado criar espaço para instalar colonatos nessa zona da Palestina, já declarados ilegais pelo Tribunal Penal Internacional.
Convém não esquecer a origem do grupo Hamas, que foi criado e financiado por Israel para se opor ao poder da Fatah, de Yasser Arafat.
A solução para os muitos conflitos que estão a acontecer no mundo é a negociação intermediada pela ONU e o cessar-fogo imediato, e no caso da Palestina o seu reconhecimento como estado soberano pela comunidade internacional.
O trazer à superfície outros fantasmas do tempo da guerra fria, como fez há dias o almirante Gouveia e Melo, só causa alarme social e em nada contribui para melhorar as relações internacionais. Aumentar a despesa em segurança, como manda a NATO, vai diminuir a capacidade de investimento nos serviços sociais, estes sim garantes de paz.
A Paz duradoura não está no uso das armas, nem nas escaladas militares, mas na boa vontade de negociações sérias e empenhadas.