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Pau que nasce torto…

Queremos mesmo dizer à próxima geração que tem de começar uma vida do zero já com uma dívida acumulada superior a 10 mil euros às costas? E que, com esse encargo mensal, ainda tem de pagar uma renda, comer, vestir-se e pagar os transportes todos os dias para o emprego?

A notícia fez manchete no penúltimo dia do ano transato: os estudantes do ensino superior em Portugal podem voltar a pedir empréstimos bancários para pagar despesas com os respetivos cursos. O sistema, que conta com garantias estatais, é parcialmente financiado por fundos comunitários e, apesar de ainda estar restrito a uma entidade bancária, a ideia é disseminar-se por mais três ou quatro.

Conta a mesma notícia que os estudantes ficam dispensados de garantias patrimoniais e podem pedir um período de carência de capital de dois anos antes de começarem a reembolsar o empréstimo, sendo que o período de amortização pode ir até aos 10 anos.

Entre 2007 e 2015, esta linha de crédito, agora ressuscitada, emprestou dinheiro a mais de 21.500 estudantes, num total de 224 milhões de euros, o que perfaz cerca de 10.400 euros, em média, a cada um. De acordo com a mesma notícia, há cerca de ano e meio, ainda faltava pagar mais de 142 milhões de euros do total emprestado naquele período.

O financiamento mais não é do que benchmarking do atual sistema vigente nos EUA e que tem afundado grande parte da chamada geração Y – nascida entre meados de 1990 e o novo milénio – em dívidas impagáveis. De acordo com a imprensa norte-americana, quatro em cada dez estudantes têm empréstimos a pagar quando terminam os estudos, sendo que o total do montante em dívida dos universitários norte-americanos ascendia, em junho do ano passado, a mais de 1,5 triliões de dólares, um valor superior ao PIB espanhol. Em média, um recém-licenciado norte-americano já deve cerca de 28.400 dólares à saída da faculdade.

Já não vivemos “acima das possibilidades”?

Por cá, a receita parece ir pelo mesmo caminho, esquecendo a velha ladainha de que andámos a “viver acima das possibilidades” que formos forçados a ouvir, sem rebater, durante mais de quatro anos. Onde andam agora essas vozes de Amós?

Em vez de garantir o ensino universal gratuito, eliminando por completo as propinas, de construir residências universitárias a preços acessíveis ou de criar condições para combater a exploração crónica dos estágios, o executivo de Costa parece mais interessado em ajudar a engordar os lucros do sistema financeiro à boleia de fundos da União Europeia. União essa que, apesar das lições da História recente, teima em seguir pelos mesmos caminhos.

O sistema é tão enviesado que permite que alunos que reprovem dois anos tenham de começar a reembolsar o montante em dívida ainda antes de terem terminado o curso, o que é meio caminho andado para o incumprimento. Queremos mesmo dizer à próxima geração que tem de começar uma vida do zero já com uma dívida acumulada superior a 10 mil euros às costas? E que, com esse encargo mensal, ainda tem de pagar uma renda ou tentar comprar casa, comer, vestir-se e pagar os transportes todos os dias para o emprego? Isto, se tiver a sorte de arranjar logo um ou se não andar de estágio em estágio ad aeternum.

Queremos mesmo que os nossos filhos tentem construir um percurso profissional, constituir família e contribuir para o aumento (ou, pelo menos, para a manutenção) da taxa de natalidade com os já de si míseros vencimentos de início de carreira e ainda com uma dívida considerável a reboque?

Importa ainda ter em conta o desemprego jovem, que em Portugal ronda os 20 por cento e é um dos mais elevados da União Europeia. A quem pensa o ministro Manuel Heitor que vai calhar o pagamento dos montantes em dívida dos recém-licenciados que engrossarem esta taxa? Embora com garantia mútua do Estado, não irá o erário público tentar ressarcir-se? Não estarão as famílias portuguesas já assoberbadas com encargos, sr. ministro? E quanto a si, sr. Costa, é mesmo este o começo de vida que quer dar aos nossos jovens?

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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