Não é por si uma tendência nova enquanto tal, o exemplo do Nobel português Egas Moniz, para o efeito basta para relembrar que a história desta tendência se estende no tempo.
Contemporaneamente é fácil encontrarem-se exemplos desta prática entre os lugares comuns, se uma criança tem um comportamento agressivo, demasiado "ativo" ou lacunas de atenção encontra-se sempre uns medicamentos para resolver o problema.
Enfim, não é complicado identificar-se esta corrente de práticas médicas, principalmente quem pensa e atua criticamente contra essa tendência no seio da medicina. Chamando à conversa o que pode aparentar ser um exercício de simplismo - ou não (!) - pode-se encarar estes fenómenos como uma galopante tentativa de corrigir a falta de resposta por parte das estruturas, (da família, do Estado, à sociedade, e como é óbvio da organização económica) junto do individuo, transferindo-se ónus da questão para o particular.
O caso mais claro desta enunciação é a imensa literatura de auto-ajuda. Dir-me-ão que isto derrapa para lá da cientificidade médica, talvez, ou talvez não. Vejamos, a medicina dominante acompanha as tendências dominantes da sociedade, ela é, como um outro campo qualquer disputável e altamente influenciada pelo padrão de valores hegemónico.
O desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde está diretamente ligado à tendência económica de matriz liberal, tal como o que é considerado doença ou não - em certos e determinados casos - como foi no passado não muito longínquo, a homossexualidade.
É recorrente, que após despedimentos, desemprego alargado, acidentes de trabalho, os lesados, dada a alteração radical do status e do papel desempenhado perante a sociedade, estes entrem em períodos alargados de depressão, passando o "problema" a ser assunto de psicólogo, médico, ou psiquiatra. Apesar da raiz do problema ser económico, ele transfere-se para o foro medicinal.
No abstrato podemos considerar que a sociedade empurra para as clínicas os problemas que não consegue resolver através das instituições formais de emprego, no concreto, sem qualquer demagogia, o capitalismo tratou de criar um aparelho de patologização e de individualização de problemas gerais, como é o emprego e o desemprego, que são coletivos e públicos. Nestes casos, que não se brindam por serem poucos, os profetas do empreendedorismo são essenciais, como porta-vozes da ideia do fracasso individual em larga escala. Isto é, se não se triunfa no mercado de trabalho é porque se é inapto ou "complexado". Fazendo-se com que cada trabalhador seja um jogar per si, ou triunfa na arcada, ou game over porque não tem aptidão para descodificar as complexidades das sociedades modernas e globais, logo detém um comportamento desviante, assim prega a ideologia.