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Parolices ultraliberais

O conceito de “nómada digital” está carregado de simbolismo ideológico e conta com o entusiasmo parolo de quem, ansioso por dar prova de cosmopolitismo, é presa fácil para histórias de unicórnios e carochinhas.

Pertenço a uma esquerda que se bate por um mundo sem fronteiras. O futuro de Portugal depende da capacidade de atrair e integrar imigrantes. Com a mesma determinação, oponho-me a uma política de elitização das migrações. Recuso encarar a maioria dos imigrantes como corpos de trabalho sem direitos, enquanto se privilegia turismo e imigração de luxo.

Portugal participa neste processo de seleção social. É assim com os Vistos Gold ou com o regime do Residente Não Habitual, que atribui benefícios fiscais injustificados a quem declare aqui viver uma parte do ano. É também assim, agora, com o visto para “nómadas digitais”.

Não há razão para rejeitar o princípio da atribuição de visto a quem queira viver em Portugal como teletrabalhador de outro país. O problema surge quando esse regime: i) é mais favorável face a imigrantes ou refugiados; ii) está associado a benefícios fiscais desproporcionais e injustos; e iii) é limitado a cidadãos com rendimentos mais altos.

Muito pode ser dito sobre o significado e contributo dos “nómadas digitais”. Notem como o conceito é indefinido: é tão nómada digital quem decide aqui viver, embora trabalhando numa multinacional, como quem corre o mundo a brincar às criptocoisas ou quem ganha a vida como influencer de TikTok. Em comum, estes “nómadas” têm o facto de apreciarem as amenidades locais e usufruirem de rendimentos muito superiores à média portuguesa. Não vejo, em qualquer dos casos, razão para tratamento privilegiado.

Gostaria de ver o meu país a ser mais criterioso quanto a esta “nova economia”, que é também uma novilíngua de start-ups, unicórnios, DeFi e blockchains. Até as grandes revoluções tecnológicas e financeiras - não é o caso - foram marcadas por propaganda, fraudes e bolhas (lembram-se da crise das dotcom em 2000?).

Mas Portugal segue a tendência de países que, com segurança e um certo exotismo, são baratos para os bolsos dos “nómadas”. Como aqui, a Cidade do México paga o preço desta estratégia em inflação imobiliária, gentrificação e destruição do comércio. As cidades transformam-se em versões umas das outras, para serem sempre reconhecíveis por quem as procura.

Finalmente, o conceito de “nómada digital” está carregado de simbolismo ideológico. É o expoente máximo do empreendedor atomizado no contexto da economia global financeirizada, marcada pela despolitização do trabalho e do salário. É o avatar perfeito do ultraliberalismo, que o Governo PS tão bem promove. E conta com o entusiasmo parolo de quem, ansioso por dar prova de cosmopolitismo, é presa fácil para histórias de unicórnios e carochinhas.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 18 de novembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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