Parcialmente cobardes, absolutamente cúmplices

porCatarina Martins

25 de maio 2026 - 14:55
PARTILHAR

A proposta de suspensão parcial do acordo UE/Israel, avançada pela Comissão Europeia há já quase um ano, é uma anedota. Restringe-se à participação de empresas israelitas num fundo para a inovação, deixando intactos todos os outros apoios e a relação comercial privilegiada.

Ben Gvir divulgou imagens da violência com que Israel trata as pessoas que participaram na última flotilha que foi intercetada. As imagens chocaram o mundo e Netanyahu veio dizer que aquele tratamento “não se alinha com os valores de Israel”. Em Portugal, o governo decide que é tempo para uma suspensão parcial do acordo entre a União Europeia e Israel e anuncia que apoia a proposta da primeira-ministra italiana para sanções ao ministro israelita Ben Gvir.

E nada disto faz sentido ou tem qualquer efeito prático. Vamos por partes.

É absolutamente normal, desejável e até obrigatório que, quando são violados direitos de cidadãos no estrangeiro, os governos dos seus países reajam. Se não o fazem, não há limites. As flotilhas humanitárias representam o melhor da consciência civil global: um ato de coragem extraordinário de homens e mulheres que, face à paralisia institucional, arriscam a própria vida para quebrar um bloqueio ilegal e levar dignidade e sobrevivência a quem perdeu tudo. O tratamento que Israel dá a estas missões de paz é apenas um dos exemplos do seu desprezo pelo direito internacional: intercepções e ataques em águas internacionais, e mesmo em águas territoriais de outros países, detenções ilegais e tratamento crescentemente violento. Desta vez, há até relatos de agressões sexuais e violações. Menos cumplicidade teria travado este caminho. É desta? Não parece.

O choque com a mais recente atuação de Ben Gvir é uma encenação. Que Netanyahu, criminoso de guerra com mandado de captura do Tribunal Penal Internacional, venha garantir que esses não são os “seus valores” é uma farsa sinistra. Que os governos europeus só agora se choquem com Ben Gvir é absoluta hipocrisia. Ben Gvir não só já o tinha feito antes como é o ministro que anda com uma forca na lapela; a sua conquista política mais relevante dos últimos tempos foi a lei que permite condenar à morte os prisioneiros palestinianos. Uma lei de pura violência e apartheid, que não votou sozinho. Querem Meloni ou Montenegro convencer-nos de que o problema com o governo de Israel é um ministro?

Então e o genocídio? A Organização Mundial da Saúde fala em “vida em colapso” e alerta para o facto de o anunciado cessar-fogo não ter parado a mortandade em Gaza. Quase 2 milhões de deslocados, 80% das infraestruturas destruídas, mais de 70 mil mortos e muitos outros desaparecidos, fome e crise sanitária. Na Cisjordânia a situação também se agrava a cada dia, com casas destruídas e assassinatos. E agora, com os olhos do mundo postos noutras paragens, assistimos à expansão da devastação e à ocupação territorial no sul do Líbano.

Face a tudo isto, a manutenção do acordo de associação entre Israel e a União Europeia é não apenas politicamente insuportável como ilegal. A União Europeia é o principal parceiro comercial de Israel; o nosso mercado único está a financiar o genocídio e a expansão desta guerra regional. Ainda que o acordo estabeleça explicitamente no seu artigo 2º que as partes têm de respeitar os direitos humanos. É precisamente contra este financiamento institucional que se levanta a Iniciativa de Cidadania Europeia (ECI) "Justiça pela Palestina", que em três meses recolheu um milhão de assinaturas.

A proposta de suspensão parcial, avançada pela Comissão Europeia há já quase um ano, é uma anedota. Restringe-se à participação de empresas israelitas num fundo para a inovação, deixando intactos todos os outros apoios e a relação comercial privilegiada. A proposta tem estado parada no Conselho Europeu; Israel conta ainda com o apoio de vários governos europeus. Montenegro diz agora, quase um ano depois, que aceitará esta suspensão parcial. Tão tarde e tão pouco que não é nada.

Não há caminhos intermédios. Na relação da União Europeia com Israel há duas escolhas: ser cúmplice dos crimes de guerra e do genocídio ou travá-los. Para tal, não só o acordo de associação tem de ser integralmente denunciado, como é preciso travar o comércio de armas, impor sanções abrangentes e fazer cumprir os mandados de captura do TPI. Tudo o mais é cobardia e cumplicidade.


Artigo publicado no Público a 23 de março de 2026

Catarina Martins
Sobre o/a autor(a)

Catarina Martins

Eurodeputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Atriz
Termos relacionados: