Intervenção na sessão pública “Travar a espiral a Guerra”, realizada a 16 de março de 2026 na Cantina Velha da Universidade de Lisboa
Quero começar por agradecer o generoso convite de José Manuel Pureza, uma pessoa que tem a capacidade de sentar na mesma mesa gente com percursos diferentes e a vontade comum de parar esta guerra.
E quero partilhar convosco algumas questões que, julgo, sustentam esta vontade maior.
A primeira é a dúvida fundada sobre se podemos confiar que este governo e os partidos que o sustentam protegem a nossa soberania? Se eles defendem os interesses do povo português? E se, nos 50 anos da nossa Constituição, convocarmos a “República soberana” e a “vontade popular” (consagradas no art. 1.º), a resposta é negativa. Não podemos confiar, quando a utilização da base das Lajes é prova da cedência ao império, ou quando o 1.º ministro afirma: “Estamos ao lado dos EUA…” Não estamos senhor Primeiro Ministro, nem ao lado dos EUA, nem ao lado do seu “partido dos interesses estrangeiros” que está contra os interesses nacionais.
A segunda questão tem a ver com a posição da União Europeia e o que ela nos diz – podem os povos da Europa confiar?
Multiplicam-se as vozes que denunciam a ilegalidade desta guerra. Muitos e muitas das presentes até podem ter tido esperança numa resposta europeia digna (ah, agora é que ele vai ver!). Mas a resignação é, hoje, insuportável e humilhante.
Na verdade, esta guerra é um delírio imperial que esmagou todos os princípios da decência, violando os princípios da Carta das Nações Unidas, os princípios da soberania, da autodeterminação dos povos e da integridade territorial, e arrastará uma crise económica com impacto difícil de antecipar. E a UE cala e consente.
Quando a UE tinha a obrigação de ser porta-voz da defesa dos direitos humanos e do Direito Internacional e defender a justiça para todos, repetiu o ato de submissão. O respeito pelos tratados internacionais seria um mínimo de decência, a defesa do Direito Internacional podia ter sido a voz forte da Democracia contra o Autoritarismo, mas a conivência das autoridades europeias é o pacto com a força bruta.
E é, assim, sem grande surpresa, que o chanceler alemão surge como aliado de Trump, ou que von der Leyen afirma que o Direito Internacional pode ser posto na gaveta. No seu horizonte está a frente do armamento europeu e as relações militares com Trump, enquanto este até retira sanções ao petróleo da Rússia.
A UE abdica, e é enxovalhada, mas quem está a ganhar mais, neste momento?
Penso que, por ora, a extrema-direita está a cavalgar a onda. A guerra dá-lhes um ponto unificador na sua agenda nem sempre de fácil unificação. Além da agenda, encontraram um chefe em comum – Trump. A extrema-direita está a cumprir a sua vocação e a fazer o seu papel com primor: vai domesticando a direita clássica e escavando a democracia liberal por dentro até esta ficar sem pele. E, no final, serão todos vassalos de Trump.
A terceira questão tem a ver com a classificação que remete a guerra e os seus carrascos para o plano da “loucura” e/ou para as “aldrabices” de Trump. Procurarei dar um sinal distinto, mais próximo da “racionalidade sinistra” (expressão retirada do livro Guerra Infinita), ou, se preferirem, da necropolítica de Achille Mbembe, quando ele evoca, e cito a:“generalização de formas de poder e de modos de soberania, dos quais uma das caraterísticas é produzir a morte a uma grande escala”1; ou seja, abordagens que não branqueiem o imperialismo ou secundarizem as necessidades e os ganhos que estão em causa.
Esta guerra está a ser vivida como um espetáculo em que o assassinato do líder iraniano, a destruição de uma escola e a morte de crianças como de tantos outros inocentes, fazem parte do menu, dentro da máxima de que força é poder. Aqui, em particular, o espetáculo aproxima-se das expressões de Guy Debord: “inversão concreta da vida, o movimento autónomo do não vivo”2.
Já muito se escreveu sobre este “espetáculo de poder”, onde a propaganda da Casa Branca mistura o videojogo, com masculinidade tóxica, com o que se tem classificado como “pornografia de guerra”. No fim, é suposto que, através das imagens mais cruéis, os espetadores se emocionem e vibrem de satisfação com as vitórias, quando o sofrimento do povo iraniano é uma paródia.
Podemos evocar a absoluta desumanidade, e reconhecer uma forma de viver e fazer política onde não nos reconhecemos, mas ela tem ganhos para as oligarquias que alimentam a guerra e permite a alienação dos devotos do universo MAGA. Como Bush, também Trump faz intervenção externa como forma de política interna.
É também por isso que evoco a atualidade da expressão “guerra infinita”, porque os EUA dependem do petróleo, como há mais de 20 anos, quando invadiram o Iraque. E quando se discute quem manda em quem, vale a pena ver Israel como, e cito um analista: “o porta-aviões inafundável dos EUA numa região crucial para o capitalismo global e, por isso, para os EUA”3.
Os EUA procuram a dominância da região, às cavalitas de Israel, para reforçar o controlo dos estados do Golfo na “guerra fria” com a China. O imperialismo norte-americano continua, pois, vivo e pujante. O MAGA até pode estremecer por dentro, mas avança por fora. Israel tem ficado com mãos livres sobre a Palestina. E os oligarcas do petróleo, do armamento, das tecnologias baterão palmas, sabendo que não pagarão a fatura da guerra, que ela ficará para nós.
Está na hora de juntarmos forças para parar a guerra. Todos os momentos em que juntarmos vozes e vontades valem para parar esta guerra. É tempo da defesa incondicional de um Direito Internacional mais forte do que os desejos da plutocracia de um Estado, sabendo que a Paz é uma luta dos povos; é uma luta da gente que trabalha, que vai sentir no bolso os efeitos da guerra, que sabe que dará menos aos filhos, que verá a prestação da casa aumentar.
Juntemo-nos, pois, na certeza de estarmos do lado da Democracia contra o Autoritarismo reacionário, da defesa da Constituição contra aqueles que a espezinham, do lado da soberania dos povos contra os oligarcas.
Nós não temos de pagar a fatura da guerra, nós temos o direito a uma vida digna, uma vida digna aqui, no Irão, na Palestina.