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Parafraseando Costa, "pôs-se ao fresco" (1)

E quanto a Portugal? O “exemplo verde” apresentado pelo primeiro-ministro António Costa na COP25 desta vez faltou à chamada e juntou-se a ausências como a da China, Brasil e Rússia. Entendo que o ministro Matos Fernandes não goste, mas talvez a jovem Greta não tenha assim tão pouca razão.

A nova produção sul-coreana da Netflix Squid Game convida-nos a assistir a um reality show ficcionado em que 456 adultos desesperados disputam um misterioso jogo infantil pela sobrevivência. A série é irónica e brutal, uma perfeita metáfora para os nossos tempos. Não admira portanto que tenha sido aproveitada para um protesto de ativistas climáticos em Glasgow em que vários líderes mundiais aparecem entretidos em jogos infantis perante um cartaz que exige “parem de brincar com o clima”.

Ainda não vi a série, por isso a metáfora ficará por aqui. É o que basta para ilustrar o estado das expetativas em relação à 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Greta Thunberg esteve lá, e voltou a irritar muitos líderes internacionais com acusações de que a COP26 não passaria de promessas vãs e muito “blá blá blá”.

Um desses críticos foi o ministro do Ambiente João Matos Fernandes, que revelou ter ficado pouco impressionado com as declarações da ativista sueca, a quem acusou de querer eliminar as instituições e de não ser tão apaixonada pela democracia [quanto ele] por ter afirmado que “a liderança está na rua”. Longe vai o tempo em que Matos Fernandes escrevia cartas para desejar as boas-vindas à jovem Greta a Lisboa: “Estamos gratos pelo teu ativismo, como forma de sensibilizar todos, gerações novas e velhas, para o maior desafio dos nossos tempos”, escrevia o ministro do Ambiente. Em seguida, elencava a lista de feitos que faziam de Portugal o campeão verde e da neutralidade carbónica.

Talvez o irritante das últimas declarações tenha mais a ver com o reconhecimento da frustração dessas expectativas do que com a forma como Greta Thunberg as expressou. A verdade é que o próprio ministro assume que a cimeira de Glasgow pode ser o enterro do Acordo de Paris.

Sem neutralidade carbónica à vista, foi anunciado com pompa e circunstância um acordo para acabar com a desflorestação, nomeadamente da Amazónia. Olhemos de perto para esta vitória: o desmatamento pode prosseguir por mais uma década e mesmo em 2030 não há nenhuma obrigação vinculativa para o terminar.

O Presidente brasileiro, ausente da cimeira, agradeceu. Este acordo vem substituir outro que obrigava a travar a desflorestação até 2020 e já ficou conhecido no Brasil por “pedalada climática”. Entretanto, um estudo publicado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazónia (IMAZON) refere que, entre janeiro e setembro deste ano, a Amazónia perdeu quase nove mil quilómetros quadrados de floresta. É a maior desflorestação dos últimos 10 anos. Claro que nada disto se faz sem sangue: nunca foram mortos tantos ativistas ambientais como em 2020.

Outro dos objetivos da COP26 é solidificar um mercado global de emissões. A financeirização da resposta climática pretende criar mercados de carbono à imagem do que já existe na União Europeia, que está a ser investigado por especulação e já deu 50 mil milhões de euros às principais empresas poluidoras da Europa.

E quanto a Portugal? O “exemplo verde” apresentado pelo primeiro-ministro António Costa na COP25 desta vez faltou à chamada e juntou-se a ausências como a da China, Brasil e Rússia. Entendo que o ministro Matos Fernandes não goste, mas talvez a jovem Greta não tenha assim tão pouca razão.

(1) https://www.tsf.pt/portugal/politica/antonio-costa-acusa-be-de-se-ter-posto-ao-fresco-e-de-oportunismo-13094896.html

Artigo publicado no jornal “I” a 4 de novembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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