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Para onde vai o PSD?

É no desnorte corrente que vive o PSD, agrilhoado entre um sebastianismo Passista que não se cumpre e uma promessa minada por dentro de voltar ao centro que se cria um caldo, de onde saem estas excrescências populistas.

Em pouco mais de 2 anos o partido republicano dos EUA tornou-se no “partido de Trump”. Convém lembrar que quando Trump se candidatou nas primárias do partido, a maioria dos republicanos olhava-o, sobranceiramente, como uma “anedota” nacional, aliás já conhecida de aventuras prévias. Até a Fox News gozava com Trump e este tinha quezílias jocosas com muitos dos seus pivots. Vejam como tanto mudou em tão pouco tempo! Hoje os republicanos são Donald Trump e a Fox News é comandada a partir da Casa Branca. Claro que houve um caminho trilhado pela direita americana e pelo Tea Party que resultou neste circo americano. Mas a ascenção do idiota populista não deixa de ser meteórica.

Em Portugal argumenta-se que não há espaço para um partido ou um líder populista. Um Bolsonaro aqui teria poucas hipóteses de crescimento. Talvez seja verdade neste momento político. Mas o advento do populismo não se insinua só com líderes ou partidos. Cresce, como erva daninha, onde quer que veja uma pontinha de luz. Só os mais distraídos podem ignorar os epifenómenos que vão surgindo. Não falo de André Ventura e companhia. Apesar de toda a publicidade da CMTV, o projeto Ventura é um fracasso. Importa mais tudo aquilo que desponta entre os partidos tradicionais. E quem achava que o PSD era um partido “do sistema” imune a tais fenómenos, pode tirar hoje o cavalinho da chuva.

Miguel Morgado, eterno desconhecido, veio recentemente apelidar António Costa de radical e extremista (baseado em que?). O mesmo que vem dizendo que “este regime está podre” ou que as “fake news” são “conversa de burocratas em Bruxelas”. Discurso típico do populismo: o regime está podre, é necessário alguém que “fale pelo povo” mais a demonização do “socialismo” radical e extremista em que vivemos! Se lembra Bolsonaro... não são coincidências! Miguel Morgado fundou um “movimento” cujo objetivo é “federar as direitas” – mais um que sai para fora do PSD para o “unir”. E nesse movimento está não só o próprio (por incrível que pareça) mas uma série de deputados e figuras tanto do PSD como do CDS. Almas vibrantes a garantir um plano B, não vá a direita descambar em bolsonarismo como no estrangeiro!

A afirmação sobre as “fake news" também não é inocente. Miguel Morgado não quer fechar nenhuma porta e abre-se a todo um novo léxico que percorre a extrema direita lá fora sobre o politicamente correto e a liberdade de expressão. Em Portugal já temos embaixadores de Steve Banon – as colunas de opinião do Observador que tentam forçar a entrada no país de conceitos como a ideologia do género e o marxismo cultural, embora até hoje ninguém tenha explicado coerentemente o que é que eles significam.

O caso de Bruno Vitorino é aliás elucidativo sobre até onde pode ir o PSD. O deputado que acusou uma sessão de sensibilização para a igualdade numa escola do Barreiro de ser uma “porcaria” foi prontamente defendido pelo líder da bancada do PSD com a artimanha que a extrema direita usa tantas vezes para justificar o seu discurso de ódio: a liberdade de expressão.

Mas a liberdade de expressão em semelhantes bocas é um engodo. Não se discutiu a sério em Portugal, nas últimas décadas, qualquer forma de limitação à liberdade de expressão. Não há ninguém a propor qualquer forma de limitação à liberdade de expressão. Esse debate não existe. A não ser nas colunas do Observador. O que existe é muita gente pouco habituada a ser criticada. E confunde a sua impunidade opinativa em erosão com o direito à liberdade de expressão. É preciso desmontar isto. E não atirar gasolina para a fogueira. A homofobia, o racismo e o sexismo têm que ser desmontados politicamente: denunciar as suas manifestações, a forma como afetam a vida das pessoas e propor soluções para uma sociedade mais igualitária. Este não é um debate sobre liberdade de expressão, não caiamos nessa armadilha. E não podemos permitir o caminho da vitimização – um racista é um agressor, não é nenhum paladino da liberdade perseguido. Sobre o politicamente correto nem sabemos o que é ou o que significa. Ponto!

É no desnorte corrente que vive o PSD, agrilhoado entre um sebastianismo Passista que não se cumpre e uma promessa minada por dentro de voltar ao centro que se cria um caldo, cozido a lume brando, de onde saem estas excrescências populistas. Mas não se pense que o caminho que os populismos farão em Portugal será o de sair pela direita para formar algo novo ou para produzir líderes carismáticos. Será (bem pior do que isso) pela infeção que se alastrará nos terrenos férteis que criam um PSD desgovernado ou um CDS de Cristas frágil.

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