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Para onde foge o dinheiro?

Se há uma certeza no mundo financeiro, é que um escândalo nunca vem só. Depois da Archegos foi a vez da Greensill, dois estrondos monumentais nos mercados financeiros dos EUA e do Reino Unido.

Ambos os casos nos ensinam alguma coisa sobre a podridão nesse reino da Dinamarca (sem ofensa para os dinamarqueses).

Bill Hwang, depois de uma carreira em fundos especulativos, criou uma agência familiar de gestão de fortunas, que escapa ao radar da obrigação de declaração de participações em empresas cotadas e, por isso, consegue o apoio de bancos ciosos de recompensas mirabolantes. Essa ganância concedeu-lhe imensa capacidade de alavancagem nas compras de títulos, que a Archegos utilizou para constituir uma carteira de posições, incluindo derivados de ações. Ou seja, operava com títulos que não detinha, uma arte que tem vindo a ser aprimorada em tempos recentes, esperando estar sempre do lado certo da especulação. Só que pode correr mal se uma oscilação de preços for acentuada. Assim aconteceu e, para recuperarem imediatamente os seus créditos, os mesmos bancos que financiaram a operação enquanto o sol brilhava obrigaram Hwang a vender precipitadamente 20 mil milhões de dólares em títulos, uma quantia astronómica. O valor das ações da Baidu e da Viacom CBS, dois gigantes das comunicações, foram abalados e, no segundo caso, caiu em cerca de um quarto.

Ora, como escreve Gillian Tett, editorialista do “Financial Times”, “o episódio expõe vulnerabilidades mais amplas no sistema financeiro. Afinal, qualquer esquiador de fundo sabe que as avalanchas não ocorrem normalmente apenas devido a um choque idiossincrático, mas porque a neve é instável”. Neste caso, o chão que fugiu debaixo dos pés da Archegos é a essência da especulação, ganhar com o risco até perder com o risco. A consequência é pesada, as perdas totais dos bancos podem ser de 6 mil milhões, concentradas no Crédit Suisse, que despediu os diretores de risco e de banca de investimento, e no Nomura. E depois veio a falência da Greensill, uma empresa que, aconselhada pelo ex-primeiro ministro David Cameron, manejava uma montanha de dívidas e que gera perdas acima de 4 mil milhões de dólares, ameaçando uma das maiores siderúrgicas britânicas ou a empresa mineira da Virgínia, nos EUA. A neve é bela até se fundir num lamaçal.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 16 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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