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Para onde caminhamos nesta Europa?

Para os que hoje lamentam o que se passa na Grécia, que considero ser uma grande tragédia, gostaria de recordar o que se tem passado e se passa no nosso país e na nossa Região.

Sempre tive muitas dúvidas, publicamente expressas em diferentes ocasiões, sobre esta Europa e a maneira como está organizada. Infelizmente, nunca foi perguntado aos portugueses se nela queriam entrar e se queriam o euro como a sua moeda.

Aqui em Portugal, os diversos governos sempre tiveram aversão à democracia dos referendos e preferiram impor-nos fazer parte deste labirinto, e de pobres nunca passamos.

Sempre estivemos no “rabo da lancha” em tudo o que significasse direitos mais avançados e os nossos salários foram sempre dos mais baixos. Somos os parentes pobres eternamente subjugados aos ricos, uma espécie de colonia, como existia na Madeira antes do 25 de Abril de 1974.

Entretanto os nossos “caseiros” lá foram levando a água ao seu moinho, e quanto mais tempo se passa, mais lhes devemos e mais lhes tiramos o chapéu, agachados, como mandam as boas regras de uma sociedade de onde os ricos é que mandam.

Há quem tivesse a ilusão de que, com a nossa entrada e com os dinheirinhos que iríamos receber, por sermos tão pobres, a nossa vida iria ficar com o nível da dos Ingleses, Franceses e Alemães. Lembro-me de participar em debates onde várias pessoas, desde jornalistas a dirigentes partidários, de vários quadrantes, afirmaram que eu era uma eurocética porque estava contra o avanço e a modernização tão propalada por vivermos numa aldeia global, onde a Europa significava a luz ao fundo do túnel.
Vi gastarem-se rios de dinheiro em obras pouco recomendáveis. Tudo em nome da Europa. Um dia, começaram a pedir-nos o retorno, e o remédio foi ficarmos cada vez mais endividados e mais dependentes dos benfeitores, levando-nos à beira do precipício do ponto de vista social.

Para os que hoje lamentam o que se passa na Grécia, que considero ser uma grande tragédia, gostaria de recordar o que se tem passado e se passa no nosso país e na nossa Região.

Temos uma divida muito elevada, representando, no primeiro trimestre de 2015, 130,3% do PIB (Produto Interno Bruto), sendo impagável a curto prazo se não forem alterados os pressupostos para o seu pagamento. Portugal está a fingir que tem a situação controlada, mas isso não passa de um “flop” que passará após os próximos atos eleitorais.

Temos um IVA de 23%, uma taxa adicional de IRS, um IVA da restauração dos mais altos, pensões com cortes que faz com que estejam mais baixas do que há 10 anos atrás, menos 20% no salário da função pública, um salário mínimo que esteve anos sem ser aumentado, menos proteção social no desemprego, no subsidio de doença e nas prestações sociais onde se inclui o abono de família e a proteção à terceira idade. Na Região, perdemos o direito a ter IRS, IRC e IVA 30% mais baixos e estamos a apanhar com a dupla austeridade.

Temos uma taxa de desemprego enorme, mais de 1 milhão de portugueses, onde se inclui a Madeira que tem das taxas de desemprego mais altas do País. Vemos partirem todos os dias pessoas para a emigração e as relações familiares passam a ser via “skype”, através dos ecrãs de computadores.

O Primeiro Ministro, em vez de ser chamado a responder a tudo isto, passa a vida a comentar a Grécia, quando os problemas são tão iguais, apenas com a diferença de que o povo Grego não se cala, e se tiverem que mandar embora o governo que elegeram não vacilarão. E o povo português de que está à espera? Também vejo muita gente preocupada com a Grécia quando à sua porta a “bomba” não tardará a rebentar. A questão é: estaremos preparados para correr com esta gente? Estaremos preparados para gerar reais alternativas a esta Europa e a este País? Eu quero acreditar que sim e por isso mantenho o otimismo de que vale a pena continuar a lutar.

Artigo publicado em “Diário de Notícias da Madeira”, em 17 de julho de 2015

Sobre o/a autor(a)

Deputada na Assembleia Municipal do Funchal. Antiga dirigente sindical e deputada regional
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