Palestina: a superpotência da esperança

porBeatriz Realinho

08 de dezembro 2025 - 14:20
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A Palestina mostra-nos que a esperança é uma necessidade. Uma superpotência capaz de romper fronteiras, de unir povos e de construir um novo mundo. Cabe-nos transformar essa esperança em ação política, em solidariedade, em luta por justiça. Que a transformemos em futuro.

Bombardeamentos diários, ferimentos, amputações, fome, deslocamentos forçados, privação de água e bens essenciais, ausência de liberdade. 76 anos de um projeto colonialista e sionista de ocupação, apartheid e limpeza étnica. É esta a realidade transmitida em direto. Num tempo em que tantos se deixam capturar pelo medo, pela indiferença, pelos interesses económicos, é na luta por uma Palestina livre que se constrói a capacidade coletiva de resistir, sonhar e reconstruir. Para muitas jovens, em Portugal e no mundo, o movimento por justiça na Palestina foi o despertar para uma militância ativa, o despertar de que mudar era preciso. A Palestina surge, então, em nós como a superpotência da esperança.

É na esperança que encontramos caminho: aquela que se encontra nas comunidades que se reorganizam depois da ameaça de um novo bombardeamento, de um novo massacre, uma nova deslocação forçada; nas mulheres que organizam redes de solidariedade, resistência clandestina, que assumem responsabilidades nos cuidados de saúde, na educação e na alimentação das famílias e dos jovens; dos jovens que sem um futuro garantido insistem em imaginá-lo; nos médicos que continuam a trabalhar sem meios, descanso e proteção; nos jornalistas que todos os dias nos fazem chegar o que em Gaza acontece. A esperança que encontramos em cada pessoa que habita territórios ocupados, as que vivem como refugiadas dentro e fora da Palestina histórica, as que compõem a diáspora palestina, as que enfrentam o genocídio e a limpeza étnica. Defender a terra, as suas casas dos ocupantes coloniais, defender as suas comunidades: ensinar a vida.

E é esta esperança que interpela o mundo, porque a solidariedade é uma responsabilidade. Porque não aceitamos que a normalização da violência se torne hábito político, porque não aceitamos que vidas sejam tratadas como corpos descartáveis. É, por isso, necessário compreender que a esperança não nasce de discursos vazios, nasce da ação concreta de quem acredita que um outro mundo é possível. É essa esperança que vemos em cada flotilha que parte rumo a Gaza, nas ações de solidariedade com a Palestina pelo mundo, em cada coletivo que é criado nas faculdades pelas mãos de estudantes.

A luta palestiniana ensina-nos que quando tudo parece perdido, a esperança pode tornar-se a forma mais radical de resistência. Não porque é ingénua, mas porque afirma, contra todos os poderes, que outro futuro é possível. É esse futuro que nos cabe construir. Hoje, quando dizemos Palestina Livre não falamos apenas da libertação de um povo. Falamos também da nossa própria libertação: do neoliberalismo, que mercantiliza as necessidades básicas das pessoas, aumentando desigualdades, a quem a desumanidade lhe é indiferente; do conservadorismo, que não gosta que as subalternas tenham voz e direitos; do colonialismo, onde, em Portugal, a solidariedade com a Palestina inscreve-se numa memória coletiva marcada pelo passado colonial. Esta leitura aproxima a defesa da Palestina das lutas contra o racismo estrutural: desde a violência contra pessoas negras, ciganas e imigrantes até às desigualdades herdadas do colonialismo. A Palestina é o espelho das lutas contra a ocupação e dominação, refletindo a urgência de desmantelar estruturas de violência que tem raízes coloniais. Olhar para o passado à procura de futuro é a nossa responsabilidade enquanto esquerda anti-imperialista.

A Palestina mostra-nos que a esperança é uma necessidade. Uma superpotência capaz de romper fronteiras, de unir povos e de construir um novo mundo. Cabe-nos transformar essa esperança em ação política, em solidariedade, em luta por justiça. Que a transformemos em futuro.

Beatriz Realinho
Sobre o/a autor(a)

Beatriz Realinho

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais. Ativista política e das causas LGBTQIAP+, ambientais e feministas. Autora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”
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