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Palavras

Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

Na sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: “Esta Comissão é tão diversa como a Europa”. Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um Tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na actual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média alta. Muito menos vive toda numa “caixa” cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

É evidente que o conteúdo político da Comissão importa, e muito, mas não creio que se possa ignorar as palavras escolhidas, seja no discurso ou para as diferentes pastas. Essa análise é fundamental porque as palavras são também política. O recurso a algumas específicas e a omissão de outras cria novos objectos políticos. Um exemplo claro disso, é a nova pasta que tanto deu que falar esta semana. Refiro-me, como é óbvio, à pasta da “Protecção do nosso modo de vida europeu”. Dizer que é uma escolha errada de palavras é ser cúmplice do programa político que esta acarreta. O “modo de vida europeu” foi o mote da campanha de Manfred Weber, a quem Ursula von der Leyen veio “retirar” a presidência da Comissão. Ao escolher as palavras do seu companheiro de partido, a nova presidente da Comissão parece querer agradar à sua família política, o problema é que com isso recupera a linguagem da extrema-direita que defende uma Europa com mais ou menos o mesmo grau de diversidade da actual Comissão e, de preferência, sem imigrantes. Colocar nas competências desta pasta as questões da imigração é mesmo um dos sinais políticos mais fortes e mais preocupantes. É uma ofensa e uma provocação. Seguramente que von der Leyen sabia disso. Há ainda a nova pasta “Uma Europa mais forte no mundo”. Trocado por miúdos, as duas pastas juntas resumem-se basicamente no programa: fechemos o “nosso” mundo ao mesmo tempo que ocupamos ainda mais o dos outros.

As palavras contam, sim. Ao mesmo tempo que quis “inovar” com tais designações, a presidente da Comissão eliminou palavras até agora existentes no portfólio. Entre as palavras eliminadas estão: cultura, educação, ciência, investigação, cidadania, assuntos sociais e direitos fundamentais. Não se trata de inovação e muito menos de novidade. O novo desenho da Comissão é mesmo muito velho.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 14 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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