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Padrões do nosso (des)contentamento

Se o Padrão é a visão do Império criada pelo Estado Novo, falta uma visão moderna, uma visão menos centrada nos heróis e mais nas pessoas, nas sociedades, nos seus movimentos.

As memórias do império estão vivas e continuam a agitar as águas em Portugal. O Cabo das Tormentas está em Belém com arbustos e navegadores. Local primeiro da memória coletiva de Portugal também é um local da disputa por essa memória.

Depois da polémica, ainda não resolvida dos brasões na Praça do Império, é a vez do Padrão dos Descobrimentos. Desta vez foi o deputado Ascenso Simões, de forma alguma um radical que numa entrevista sobre a memória do império, considerou que após o 25 de abril se deveria ter demolido o Padrão dos Descobrimentos. Esta consideração sobre a forma como se lidou com a memória colonial foi transformada numa proposta e choveu o ódio, tal como pouco tempo antes tinha chovido em relação a Mamadou Ba. Como é branco, não o mandaram para a “terra dele”, mas há apelos à perda de mandato.

Com tanto atentado diário contra o património no meio da indiferença geral, parece que o problema é mesmo o património da ditadura. Atentar contra ele, por irrelevante que seja, é atentar contra a História de Portugal. Como se a História de Portugal fosse a visão de história da ditadura. Só que isso está muito longe da verdade. O Estado Novo, faltando-lhe a legitimidade democrática, tentou usar a história para se legitimar. Para isso foi necessário construir uma visão de heroica de história em que só havia lugar para heróis, não existiam derrotas, pouco importava a realidade.

Devo esclarecer que não proponho a demolição do Padrão dos Descobrimentos mesmo que o entenda como símbolo do Estado Novo e não dos descobrimentos e por muito feio e sobrevalorizado que o ache. É um pouco como aqueles objetos que se herdam dos avós, são feios, não gostamos deles, mas há um valor sentimental. Bom, um dos meus tios ficou com a tapeçaria da caçada aos tigres na Índia, que estava em casa dos meus avós, fiquei contente com isso.

Numa cidade onde há uma Rua do Poço dos Negros no local para onde eram atirados os corpos dos escravos, falta dar presença no espaço público aos esquecidos, às vítimas

Lembremos que este padrão foi feito em materiais provisórios para a “Exposição do Mundo Português” com a qual Salazar celebrava a sua visão da História de Portugal. O original de 1940 foi demolido em 1943 (que tal uns impropérios contra Salazar). Em 1960, por ocasião das comemorações henriquinas (que nos deixaram uma bela coleção de moedas) lá apareceram os famosos brasões e o Padrão foi de novo construído com materiais definitivos. Diga-se que o arquiteto responsável pelo projeto original, Cottinelli Telmo defendia a sua demolição, já que era contra o conservar “farrapos” da Exposição. O Padrão de 1960 não é, obviamente, exatamente o mesmo de 1940. O Mundo também não era o mesmo, já não seria possível apresentar nativos como se estivessem no zoo e o colonialismo começava a ser contestado. Muitos países tinham perdido os seus impérios, a perda de Goa, Damão e Diu aconteceu pouco depois. A guerra colonial, também rebentaria no ano seguinte.

Como é sabido o Padrão é uma representação estilizada de uma caravela, vela triangular como se aprende na escola, com umas dezenas de figuras de pessoas ligadas à expansão. À proa o “grande timoneiro” que não foi mais longe que Tânger, onde foi derrotado. Mas não convinha falar em derrotas, porque agora o timoneiro era outro, o herdeiro de todos os gloriosos heróis, Salazar. Fez-se representar como D. Afonso Henriques, não o chegou a fazer como D. Henrique, mas a figura de chapelão preto foi largamente promovida.

Chegou a pensar-se que as figuras representadas podiam ser anónimas, teria a vantagem de não haver discussão sobre quem estava ou não representado, mas o Estado Novo precisava de heróis. Isto também estava de acordo com a conceção de História, ainda corrente em 1940, mas muito abandonada em 1960 de uma história centrada em batalhas e grandes acontecimentos.

Ingressando na discussão de quem está e não está representado, entra-se num belo ninho de vespas, pode-se notar a ausência da maioria dos reis da época, embora a única mulher seja uma rainha, D. Filipa de Lencastre. Nem D. João I, D. Duarte, D. João II, D. Manuel ou D. João III, estão representados, seguramente para não retirar a primazia ao Infante. Faltam também os estrangeiros como Cadamosto que tiveram um papel importante na expansão, mas sendo uma epopeia portuguesa convém não os lembrar. Notar a inclusão de missionários, de escritores, mas não Gil Vicente que no Auto da India criticou a expansão, de Pedro Nunes, mas não de Garcia de Orta, Cristão-Novo cuja família foi perseguida pela Inquisição. É uma discussão infindável, mas estou convencido de que os especialistas de então a tiveram. Notar igualmente que estas personagens balizam aquilo que se considera a época de ouro da Expansão Portuguesa.

A polémica sobre quem é representado é interessante, mas não da forma como podia ter sido discutida em 1939, ou 1959. Porém, primeiro uma questão de terminologia. A palavra descobrimentos é enganadora e, de facto, só se pode aplicar aos arquipélagos atlânticos. Todos os outros locais eram habitados, por isso se fala no Caminho Marítimo para a Índia, Descobrimentos é a expressão da visão euro centrista.

As palavras de Ascenso Simões são sobretudo a constatação de que após o 25 de abril pouco se discutiu o legado colonial que na altura se esfumava e que a sua ideologia se mantinha. É isso o Padrão dos Descobrimentos, o ideal colonial, na sua versão Estado Novo. Embora não tendo sido a ditadura a criar nem o Império nem a sua ideologia, aproveitaram-no magistralmente.

Se o Padrão é a visão do Império criada pelo Estado Novo, falta uma visão moderna, uma visão menos centrada nos heróis e mais nas pessoas, nas sociedades, nos seus movimentos. Uma visão que considere os enormes custos humanos da expansão. Quatro milhões de escravos, foram os morreram pelo caminho. Muitos milhares de marinheiros mortos em naufrágios e de doenças. Viúvas, órfãos (como dizia o Velho do Restelo). Índios massacrados. Toda aquela zona tem sido vista como celebração disso, mesmo, um espaço de memória de que a direita não quer abrir mão.

É verdade que no Padrão existe uma programação que não prolonga mitos coloniais, mas isso não chega, é preciso desconstruir o Padrão e com ele o feitiço do império. Numa cidade onde há uma Rua do Poço dos Negros no local para onde eram atirados os corpos dos escravos, falta dar presença no espaço público aos esquecidos, às vítimas, sem isso a memória do império não será verdadeira, sem isso estar-se-á a apagar a história, para usar a expressão da moda. É altura de transformar, de forma participada e democrática, aquele espaço num espaço de uma nova memória, de uma memória que não se limite a heróis e colónias. Talvez o início dessa discussão seja a demolição do mito colonial do Estado Novo.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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