A Padaria de Carlos Silva

porMiguel Guedes

08 de fevereiro 2018 - 23:24
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Quem vir, ouvir ou ler as declarações deste último mês de Carlos Silva, secretário-geral da UGT, tem todas as razões para duvidar dos sentidos.

Pode dizer-se que todos os sindicatos têm espinhos e que todas as organizações devem crescer entre a areia na engrenagem, sem meter muita água. É verdade que a ausência de unidade sindical pode virar vários bicos aos pregos mas daí a travestismos vai um grande e pouco folgado passo. Porque vai à dignidade, ao valor do trabalho, porque vai à vida das pessoas. Quem vir, ouvir ou ler as declarações deste último mês de Carlos Silva, secretário-geral da UGT, tem todas as razões para duvidar dos sentidos. Desde logo, do sentido da própria central sindical, ainda antes de marcar os seus exames pessoais de percepção.

A propósito das alterações à Lei do Trabalho, Carlos Silva defende um serviço de cirurgia tão minucioso que se confunde com alta relojoaria sem horas extraordinárias ou com um qualquer representante do patronato a contas com relógio de ponto. Entre críticas à falta de Concertação Social no debate sobre o salário mínimo, entre a sátira das "batatinhas" que a UGT não dará aos patrões enquanto estes se quiserem entender com outros, entre o fel contra o demónio da "Esquerda radical" que agita como outros acenaram com a vinda do Diabo, Carlos Silva é mais o reflexo de Teodora Cardoso ou a ilustração lusitana de Schauble do que o espelho dos trabalhadores que diz defender. A tese do bloco operatório. Horas extraordinárias, as que se vivem na UGT.

Antes das reflexões sobre cirurgia, logo após ser recebido pelo presidente da República, Carlos Silva afirmou que irá pedir uma reunião à Administração da Autoeuropa e que será apresentada uma proposta de acordo de empresa. Certamente não contraditória com o temor reverencial demonstrado, dias atrás, nas jornadas parlamentares do CDS em Setúbal: "Era importante que os trabalhadores ficassem cientes de que ou há estabilidade interna na empresa ou corremos o risco dos alemães perderem a paciência". Ao lado de António Saraiva, presidente da CIP, o secretário-geral da UGT não deixou de sacar do papão alemão para demonstrar como os novos horários da fábrica de Palmela podem deslocalizar o trabalho para países periféricos. Sobre as razões dos trabalhadores, nada, manipulados que estão por "agitadores profissionais". Sobre as exigências patronais, só recomendações sobre o cuidado que há que ter ao dobrar a espinha.

Quando um dos patrões da "Padaria Portuguesa" defendeu a tese de que o "espírito de equipa vale muito mais do que o salário base", entre outras pérolas do século XIX sobre a flexibilização da contratação, despedimento, pagamento acrescido das horas extraordinárias e a prisão das 40 horas de jornada laboral, caíram bolos-reis no lixo mais o Carmo e a Trindade. O que pensará Carlos Silva da "Padaria Portuguesa"? Herman José eternizou com propriedade a expressão "Eu é mais bolos", expressão maior do personagem José Severino. Afinal é sindicável.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” de 7 de fevereiro de 2018

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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