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Os vampiros

Num dia da semana passada poucos minutos depois das oito, uma hora antes da abertura, o Centro de Segurança Social do Areeiro - que tem sido presença assídua dos noticiários dos últimos dias - tinha já uma fila de mais de 200 pessoas. Todos vieram fazer prova da sua necessidade. Porque assim o Governo lhes exige. Que mostrem as contas, que revelem os rendimentos, que provem o dinheiro que têm, para que possam manter os apoios do Estado. Os subsídios que afinal todos pagamos, para que quem é pobre tenha um pouco mais de dignidade na sua vida. Muitas mulheres e homens jovens, sem emprego, especialmente elas com filhos pequenos nos braços, e muitos velhos, esperam na fila pela vez da sua “prova”. Uma mulher, de 78 anos (saberíamos mais tarde), de bengala, andar muito arrastado, chega perto da hora de abertura. Fica no fim da fila. Vem justificar o subsídio de renda que recebe, de 23 euros. Porque a pensão de velhice não lhe chega, “não chega para nada”. E ficará, de certeza, algumas horas na fila, sem garantia de senha, nem de atendimento nesse dia. E terá de voltar. Ela e muitos e muitas outras. No dia seguinte, e quem sabe no outro. Até provarem “por A mais B”, como diz um dos convocados, que precisam do apoio do Estado. Até provarem que são suficientemente pobres para manter o pouco a que têm direito.

O Governo assiste a tudo, na primeira fila e sem pestanejar. Mais de 2 milhões de pessoas foram notificadas para fazer prova dos seus rendimentos, e há que cortar, doa a quem doer: 151 milhões de euros já este ano com a eliminação das medidas sociais extraordinárias. E a maior parte das prestações sociais em causa - rendimento social de inserção (RSI), acção social escolar, subsídio social de parentalidade, subsídio social de desemprego, apoios à habitação, comparticipações de medicamentos e taxas moderadoras - vão sofrer, com as novas regras, um corte anual de 200 milhões de euros só com a aplicação da nova regra da condição de recursos. Estes cortes alargam-se também aos apoios na acção social escolar e ao ensino superior e ainda às comparticipações da Segurança Social aos utentes, sobretudo idosos, apoiados pela rede nacional de cuidados continuados.

A sobranceria do Governo perante os mais pobres é inaceitável: o site da segurança social a única forma de fazer prova dos rendimentos, existindo uma password para tal e um numero de apoio que está inoperacional há vários dias. O processo passa pelo preenchimento online de sucessivos formulários, até à validação final. Uma tarefa impossível para aqueles a quem não resta senão esperar horas na fila, até 30 de Setembro, perante a ameaça de suspensão dos apoios caso não cumpram o prazo definido.

O que o Governo está a pôr em marcha é uma verdadeira campanha de perseguição social: entre taxar a banca, a 25%, como qualquer empresa – em vez dos actuais 5% - ou actuar sobre os offshores, e perseguir os mais pobres, optou-se por humilhar e martirizar os mais fracos. Aqueles que só contam na hora do voto e que são meros números na estatística. São pobres…e por isso eles querem mesmo comer tudo e não deixar nada.

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Jornalista
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