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Os troikistas que perderam a vergonha

Em nome do défice, o investimento deve reduzir-se, os salários devem ser condenados a perder poder de compra e o SNS deve continuar preso na impossibilidade de contratar médicos. Já vimos isto: chamou-se troika e prometeu que, se empobrecêssemos, seríamos mais felizes.

O aumento do PIB em 2021 está estimado em mais de 11 mil milhões de euros, em grande parte ainda para recuperar da pandemia. Como seria de esperar, sobre a distribuição desse valor e o uso da sua receita tributária incide uma luta acesa: as empresas querem menos impostos e abundantes isenções, os trabalhadores melhores salários, os utentes do SNS menos urgências fechadas de supetão, os cidadãos alguma ousadia na adaptação energética. Tudo, como seria de esperar, tem um velho nome: luta de classes.

Os argumentos para justificar as distintas opções são igualmente repescados do manual e entre os defensores da virtude da acumulação de capital há sobretudo dois. O primeiro é que não pode ser posto em causa o pacto entre o Governo e o patronato. Um exemplo eloquente foi o da subdiretora do “DN”, Joana Petiz, que, em editorial de 31 de agosto, massacrou “a reposição das restrições aos despedimentos pré-troika — como se o nosso regime laboral não fosse apontado [...] como um dos maiores impedimentos à atração dos investimentos e das empresas estrangeiras de que o país precisa desesperadamente para se desenvolver”. Não se mexe na precariedade.

O segundo argumento é o do défice zero. Ofuscado brevemente pela sensatez imposta pela emergência pandémica, o regresso do refrão da dívida demonstra como nenhum facto derruba uma teoria teimosa. Em nome do défice, o investimento deve reduzir-se, os salários devem ser condenados a perder poder de compra e o SNS deve continuar preso na impossibilidade de contratar médicos. Já vimos isto: chamou-se troika e prometeu que, se empobrecêssemos, seríamos mais felizes. O problema é só que não resultou.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 16 de outubro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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