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Os Salvini que nos atormentam destroem os regimes democráticos por dentro

O que une os Salvini, os Bolsonaro, e os Trump, não são só as embaixadas de Steve Bannon, mas o estado preparatório de repressões alargadas e de militarização do conflito social.

Canta-se a Bella Ciao um pouco por todo o lado, ainda agora se ouviu em vários atos no Brasil. O canto dos partigianos surge onde quer que aflore a resistência democrática. É um símbolo. A solidariedade primeira e íntima é com a liberdade em Itália, as outras solidariedades são com todas as lutas pela democracia e pelos direitos da humanidade. Há uns anos atrás ouvíamos a Grândola pela Europa fora como símbolo do confronto com a austeridade. Hoje, estremece-nos a energia e a inteligência de um canto de resistência.

Os Salvini que nos atormentam destroem os regimes democráticos por dentro, como casulo infiltrado. A pretensa fidelidade ao estado livre é um postiço, um embuste, a um tempo ameaça e sinal. É uma ameaça porque os recursos da democracia enfrentam um poder que a pode suspender ou subverter. É um sinal porque a mensagem que a extrema-direita envia é a de que governos reacionários, se impedidos, podem desfazer o constitucionalismo democrático. O que não é incidental é que a extrema-direita, abusando de uma legitimidade eleitoral e de uma retórica nacionalista, atrai e serve a burguesia, a mesma que ainda ontem era cosmopolita.

Os Salvini europeizam o ódio aos refugiados e imigrantes, é dessa cultura que se tem feito o cadafalso do mediterrâneo e vários campos da morte, mas também a rendição da maior parte das direitas ditas democráticas aos ultraconservadores, recordação próxima dos fascismos passados. As direitas conservadoras, até há pouco de orgulho capitalista liberal, passam-se de armas e bagagens para o campo reacionário.

Esta vaga reacionária tem sempre uma história nacional, particularidades da luta social e política de cada país. Contudo, se é possível ver as diferenças entre Orban e Bolsonaro, por exemplo, não se pode iludir que há um enlace geral neste processo e ele provém das consequências da crise do capitalismo de 2007/2008, crise destrutiva de muita economia e emprego, proletarizando e até dessocializando setores da classe média e setores populares. A extrema-direita bombardeia a consciência social com uma ideologia de exclusões: excluir o outro, o imigrante, o refugiado, o forasteiro, os fiéis de outro culto, o pobre.

No Brasil, o presidente eleito, apesar de ignorante em economia, como noutras coisas, propôs esterilizar os pobres! Como se a pobreza fosse genética e fosse crime ter ali nascido. São as exclusões por sexismo, por racismo, que figuram como capitulares na sua propaganda. As exclusões são a manipulação de massas para  dizer quem fica dentro do perímetro que se sustenta e quem são aqueles que estão a mais.

Os Salvini alimentam-se do desmantelamento do estado social e aparecem como uma resposta à globalização que tornou os offshores nos altares da circulação do capital e da reducão brutal da capacidade fiscal dos estados ditos civilizados. Trump, ultra de piquete permanente, já deu o golpe no chamado consenso de Washington, introduzindo o curso do nacionalismo económico contra a liberalização do comércio internacional. Muito para além dos interesses económicos, aqui decisivos, dissemina-se o antagonismo das origens, a mesma pulsão de ódio ao estrangeiro. Curiosamente, o consenso de Washington, foi a base e a bíblia do liberalismo económico global. Agora o liberalismo dos ultras parece ser doméstico e graduado.

Os Salvini, no caso da União Europeia, desfrutam da crítica popular a esse poder que não ajuda na crise de humanidade com os refugiados, desse poder que acentua cortes na provisão pública, desse poder que só agrava desigualdades. De uma União Europeia que não contraria as tropelias do ministro do interior de Itália, expulsando navios e barcaças, mas pretende sancionar Itália porque projeta um défice de 2,2%, até abaixo do número mágico dos 3% do défice excessivo. Salvini agradece e sobe nas sondagens

 

O que une os Salvini, os Bolsonaro, e os Trump, não são só as embaixadas de Steve Bannon, mas o estado preparatório de repressões alargadas e de militarização do conflito social. E aí o choque vai ser duro. Só pode ser travado pela solidariedade progressista e pela unidade popular.

Certamente, que as esquerdas cometeram muitos erros em cada um dos países que testemunham hoje o assalto ao poder da extrema-direita, e é importante analisar esses fatores de perda de apoio popular, quaisquer que sejam, desde retrocessos de representação classista até habituações indevidas de cadeiras de veludo. Mas nada terá pesado mais do que décadas de social-democracia como gestora do capitalismo. Um facto é sintomático da impreparação, a subestimação geral do avanço da extrema-direita. Mas já tocaram os sinos para a resistência estratégica: ela passa pela unidade dos democratas, sem concessões aos liberais de tipo Macron, passa pela mobilização popular, passa pela recuperação de direitos sociais no concreto da saúde, salário, segurança, casa, escola, dignidade.

Em situações parecidas do passado, de um século, as nossas esquerdas proclamavam com o dramatismo da inteligência, socialismo ou barbárie! O desafio da política é denunciar uma barbárie que não se apresenta como tal e anunciar um socialismo que não se impõe como tal. As definições transitórias pertencem a encruzilhadas históricas. A humildade de pensamento é trazer a arma da crítica ao pé da réplica social e olhar mais longe.

Sei que os herdeiros de Gramsci são a insurgência. Antecipo que cruzarão os caminhos da unidade popular. Esse é o sangue do nosso sangue.

Camaradas italianos, estamos convosco!

Intervenção na sessão internacionalista do Bloco de Esquerda a 9 de novembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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