Os salteadores da arca perdida

porAlice Brito

26 de julho 2010 - 3:05
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Enquanto gastam milhões dizem-nos que devemos poupar. Enquanto recebem reformas milionárias arreganham o dente contra os do rendimento mínimo.

Não estão vocacionados para obstáculos. Quando estes aparecem, investem com uma violência irracional. Despedem, cortam, abrem falências, culpam o estado, os governos, os amigos e os inimigos. Promovem mudanças que consideram urgentes e inquestionáveis.

Enquanto fecham fábricas, dizem aos trabalhadores que são uns inúteis, improdutivos.

No preciso momento em que os portões se fecham à chave, com o seu clique automático e definitivo, as vozes liberais gritam à malandragem desempregada para ir trabalhar.

Os visados ouvem o apelo, vão trabalhar parasitas, enquanto olham de olhos melancólicos o sítio encerrado em que deixaram ficar anos inteirinhos de juventude, de força e de trabalho.

Enquanto gastam milhões dizem-nos que devemos poupar.

Enquanto recebem reformas milionárias arreganham o dente contra os do rendimento mínimo.

São radicais da impiedade e da desvergonha tudo arrasando como tanques de guerra enfurecidos, à primeira notificação para a austeridade. Esta austeridade tem vários significados: para eles pode ser dourada, para os outros pode ser pesada.

Tudo isto podia ser uma descrição miserabilista, caricatural, forçada, um neo-realismo serôdio, ultrapassado, se não fosse rigorosamente verdadeiro.

Quem tiver ouvido há dias Mira Amaral, televisivo e técnico da desfaçatez, com um espantoso à vontade, dizer que o Estado devia deixar em paz os cidadãos que como ele pagam os seus impostos e devia perseguir, inspeccionar, sancionar, os que indevidamente recebem “fortunas” do rendimento mínimo, perceberá que a descrição fica aquém da realidade.

Mira Amaral, o protótipo do despudor.

Este esteta da nova ordem ficou conhecido pela choruda reforma – dezoito mil euros – com que se veio embora da Caixa Geral de Depósitos; a esta reforma acrescem outras de montantes igualmente obesos.

Quem de igual modo tiver ouvido há dias Ernâni Lopes, ex ministro, falar, com uma displicência fácil e sentenciosa, no corte de salários que a bandidagem do funcionalismo púbico deverá ter, entenderá seguramente do que se está a falar.

Escorre do discurso desta gente uma arrogância insultuosa, um farisaísmo transcendente e intenso, uma calma imoral e resignada com a própria imoralidade, como se não houvesse argumentos capazes de anular aquela lógica de necessidade, aquela inevitabilidade para a pilhagem.

Há como que um esplendor negro a sair daqueles discursos alvoraçados que ouvidos ávidos escutam pressurosos e subscritores.

A maior parte destes mecânicos do neoliberalismo assume como que uma castidade, uma virgindade de propósitos, uma determinação sacrificial, uma lealdade ao mercado e à desregra salteadora, que os faz seguir numa só direcção, num só rumo, à semelhança dos fantasmas terríficos que tudo destroem à passagem.

São sóbrios como carrascos a quem o poder mandatou para a execução. A possibilidade do poder lhes vir parar às mãos a breve trecho, requinta a panóplia de propostas irrecusáveis, como aquelas que os padrinhos de Coppola faziam nos seus filmes.

Têm a simplicidade cruel, o sentimento de obrigação a cumprir, a quase inocência abjecta com que sempre se fazem os grandes crimes, aqueles que são concebidos dentro de lábias fundamentadas em princípios que excluem a matéria-prima da decência e ignoram os destinatários do suplício que propõem.

Andam todos à procura da arca perdida onde pensam encontrar o segredo que os salvará das crises labirínticas em que se meteram e nos meteram. Percorrem então estes caminhos insensatos e cruéis, considerando estar na senda da salvação da pele. Só que tudo isto não é um filme de aventuras.

Pode não acabar bem.

Alice Brito
Sobre o/a autor(a)

Alice Brito

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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