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Os outros empecilhos

Há quem ache que aquilo dos empecilhos era para a esquerda. Pois eu não acho. Acho mesmo que o que o Deputado Carlos Pereira quis vincar foi a necessidade de rutura do PS com velhas alianças fundas que orientaram governações anteriores para a direita.

Há quem ache que aquilo dos empecilhos era para a esquerda. Pois eu não acho. Acho mesmo que, ao dizer do alto do púlpito parlamentar e nas vestes de vice-presidente da bancada parlamentar socialista que “aquilo de que precisamos é de ter força para governar sem empecilhos”, o que o Deputado Carlos Pereira quis vincar foi a necessidade de rutura do PS com velhas alianças fundas que orientaram governações anteriores para a direita.

Cá na minha, aquilo dos empecilhos era para a EDP. Carlos Pereira não esqueceu aquela cena macaca de o PS ter votado a favor de uma taxação justa das elétricas numa sexta feira e ter pedido nova votação na segunda seguinte para deixar de votar a favor e passar a votar contra. Toda a gente percebeu que tinha havido pressões de quem manda na eletricidade em Portugal para mudar a posição do PS. Obra de empecilhos à justiça, portanto. E Carlos Pereira veio agora tirar a desforra e dizer ao PS que se tem que livrar deles. Tem razão, digo eu.

Cá na minha, aquilo dos empecilhos era para o patronato. Carlos Pereira tem presente que o PS defraudou a expetativa do mundo do trabalho ao teimar em manter no Código do Trabalho normas que humilham os trabalhadores – como a que permite que o contrato de trabalho fixe como local da prestação do trabalho “todo o território nacional” – ao alargar o período experimental para seis meses nos novos contratos sem termo assinados por quem obtém o seu primeiro emprego ou ao não regular com humanidade o trabalho por turnos ou o trabalho noturno. O vice-presidente parlamentar socialista sabe que os patrões fizeram toda a pressão para que assim ficasse na lei. Foram empecilhos, portanto. E Carlos Pereira vem agora convocar o seu partido a que se veja livre deles. Toda a razão, uma vez mais.

Cá na minha, aquilo dos empecilhos foi para os reitores das universidades. Os reitores usaram todo o seu poder para travar o cumprimento do programa de regularização dos precários da administração pública nas respetivas universidades. Carlos Pereira sabe que o início de caminho de integração dos precários do Estado foi uma das mudanças mais positivamente sentidas por muita gente nos últimos quatro anos. E não perdoa que os reitores tenham sido uma força de bloqueio à integração de bolseiros e docentes que as universidades mantêm em regime de falsos recibos verdes ou de outras formas de vínculo precário. Não lhes perdoa que tenham sido empecilhos. E faz bem.

Cá na minha, aquilo dos empecilhos era para quem, no PS, teima em defender os vistos gold. Clamando contra os empecilhos, Carlos Pereira deu afinal voz ao incómodo face ao discurso de dirigentes socialistas que reconhecem que os vistos gold são um serviço à especulação imobiliária e ao branqueamento de capitais, mas logo acrescentam que não se pode fazer nada porque acabar com essa pouca vergonha seria perder uns milhõezitos que tanta falta fazem ao excel para mostrar à Standard and Poors. Os defensores da manutenção dos vistos gold são empecilhos à mudança decente. E Carlos Pereira denuncia-os. Faz bem.

Cá na minha, aquilo dos empecilhos era para os sacerdotes do défice zero e da economia superavitária. Carlos Pereira sabe que a febre de dar a Bruxelas provas de fidelidade ao mandamento da contenção impediu que as pessoas pudessem ter serviços públicos com capacidade de dar resposta, em tempo, às suas necessidades (na justiça, na saúde, na educação, na integração de migrantes) e foi argumento de peso para negar uma presença desses serviços em todo o território do país, sobretudo lá onde eles seriam imprescindíveis para a fixação das pessoas e impedir a desertificação humana. Carlos Pereira, corajosamente, enfrenta esses intérpretes de uma política orçamental de restrição e diz que o PS tem mesmo que se livrar dessa cultura e dos seus porta-vozes. É assim mesmo.

Estou de acordo com Carlos Pereira: o PS só ganharia em deixar de ter estes empecilhos a uma governação que sirva a grande maioria do nosso povo. É por isso que a esquerda tem que ter força: para empecilhar esses empecilhos e quem lhes dá a mão.

Artigo publicado na “Visão”, a 19 de setembro de 2019, no nº 1385

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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