Desenganem-se todos aqueles que vivem do fruto do seu trabalho, seja ele qual for, com as preocupações permanentemente alardeadas pelos liberais e neoliberais sobre a necessidade de baixar a carga fiscal. Essas alegadas preocupações nada têm a ver com uma perspectiva social ou com os rendimentos das classes trabalhadoras.
A finalidade é bem menos clara e esconde os seus fins. É que os impostos que pagamos deveriam ser, em princípio, destinados ao financiamento do Estado Social, como o serviço de saúde, o ensino público, o pagamento das prestações da segurança social e das pensões de reforma, entre muitas outras coisas.
Ora é aqui que começa o logro liberal. A finalidade de baixar drasticamente a carga fiscal é a de retirar ao Estado capacidade de financiamento destes serviços, generalizados e tantas vezes gratuitos. Assim, estes, passariam para a esfera da iniciativa privada, alargando o âmbito da exploração dos seus lucros, sem a concorrência com os serviços públicos.
Uma outra questão é saber quais os critérios de equidade na atribuição da carga fiscal, pois é sabido que a tributação do factor trabalho é superior e menos equilibrada, que aquela que recai sobre o factor do capital, mas este não é na realidade problema que preocupe os liberais.
Uma propaganda baseada numa certa forma de egoísmo individualista, cada um por si, pretende ultrapassar as formas de solidariedade social que têm revestido os princípios que norteiam o Estado Social.
O neoliberalismo, na sua tentativa de se impor também culturalmente, vai ao ponto de alterar a designação tradicional de trabalhadores, para o uso ambíguo da designação de colaboradores e de empreendedores, mascarando assim as relações entre patrões e empregados. As palavras têm peso e sentidos próprios e as citadas acima diferem profundamente.
É sabido que este tipo de filosofia individualista tem vindo a chamar a atenção de um número cada vez maior de jovens trabalhadores, afastando-os das tradicionais associações de classe, como comissões de trabalhadores, sindicatos e outras, sob o pretexto de que preferem gerir os seus rendimentos, sem se preocuparem com a necessidade de alguma segurança em caso de doença ou quando da situação de velhice.
As novas formas de trabalho fomentadas pelo neoliberalismo, caracterizado por maior estratificação e competição, tantas vezes realizadas fora dos locais tradicionais de trabalho, como o teletrabalho; a utilização intensiva de migrantes a quem são negados os mais básicos direitos laborais; tudo isto tem contribuído para um certo isolamento dos trabalhadores afastando-os das relações sociais de camaradagem que contribuem para o aumento da consciência de classe. Acresce a tudo isto o trabalho precário e sem direitos e a utilização desregulada da chamada Inteligência Artificial. É fácil entender a quem interessa esta situação.
Também se constata, que os fundos arrecadados pelo Estado com as contribuições e impostos, nem sempre são canalizados da melhor forma com vista à criação de condições de vida dignas para todos os residentes no território nacional. Quando tal não acontece podem surgir entre a população sentimentos larvares de revolta, que são apropriados pela extrema-direita nas suas diferentes formas de actuação, a caceteira ou aquela que tem pretensões de liberal.
O combate por um Estado mais transparente, que mereça a confiança da população, com verdadeiras preocupações sociais, sem agendas escondidas, constitui um travão aos intuitos desagregadores do neoliberalismo e à imposição de um “salve-se quem puder”, individualista, que põe em causa a solidariedade, factor essencial da vida em sociedade.
Por mais exemplos que nos cheguem de fora da preponderância do individualismo e do fim do Estado Social, de sociedades que acentuam cada vez mais as profundas desigualdades sociais, sabemos que já estão aí os novos desafios a enfrentar pela humanidade, como as alterações climáticas, e que nos vão obrigar a rever as prioridades e as necessidade, que só com um trabalho colaborativo e de entreajuda pode realizar.
Para já enfrentamos o resultado das políticas do neoliberalismo selvagem sobre os que buscam trabalho digno e com direitos e as contradições dos negacionistas em relação ao ambiente.
A democracia, sob pena de se autodestruir não pode aceitar as fórmulas neoliberais do individualismo e do egoísmo selvagens que procuram subverter tudo o que foi conquistado pelos trabalhadores, em termos de direitos do trabalho e do Estado Social.
Será que às novas gerações só resta a lei da selva?