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Os idosos contra o virus V: um lugar para os idosos na comunidade

Os lares continuam a ser motivo de preocupação e os dados diários deixam-nos devastados. Sabíamos que as coisas estavam mal, não colocámos o problema sobre a mesa a tempo. Depois do Covid19, as desculpas acabaram.

1. Não, não foi pela Ursula von der Leyen que ouvimos pela primeira vez falar sobre o confinamento ad aeternum dos velhos. A afirmação é chocante e não apenas por causa do lugar político que ocupa. Co’os diabos sempre é a Presidente da Comissão Europeia! Mas porque a afirmação dela recoloca todas as conotações negativas que a Alemanha nos traz à memória. Como depois daquelas declarações nunca mais de tal se falou, alguém lhe deve ter chamado a atenção para a infelicidade da declaração. Ficamos por saber se, mesmo sendo uma declaração muito infeliz, o silêncio significa que houve alteração de planos ou se, pelo contrário, os planos continuam nos bastidores aguardando apenas pelo timing certo para a recarga. Mantermo-nos alerta, é o mínimo que podemos fazer;

2. A primeira referência a tão inóspita, desadequada e assustadora medida foi feita pelo médico epidemiologista português Manuel Carmo Gomes (cf. Público, 22.3.2020) não tendo passada despercebida a Miguel Sousa Tavares que durante uma entrevista ao próprio na TVI (23.3.2020) mal conteve a expressão de absoluta surpresa tendo voltado ao assunto em termos muito críticos na sua crónica semanal do Expresso (28.3.2020);

3. A questão é que Carmo Gomes é um cientista e sabemos como nestes últimos tempos o selo de cientificamente testado tem ganho terreno. E bem, a ciência merece esse reconhecimento pela população em geral. Mas os cientistas não estão acima da crítica e esta é tão mais necessária quanto eles se atrevem a entrar-nos pela porta dentro a determinar as nossas vidas. E nas nossas vidas para que a ciência mande é preciso bem mais do que medidas que ostracizam os velhos;

4. Admitamos que as conclusões de Carmo Gomes têm absoluta razão de ser. Antes delas virem a público, então, talvez devessem ter sido cautelosamente discutidas, escrutinadas e ponderadas entre pares, por comissões de ética, por sociólogos e psicólogos. Talvez todos juntos pudessem chegar a um entendimento que soasse menos a uma espécie de marginalização social dos idosos. Dizem-nos que a solidão mata mais do que o Covid19 o que a ser verdade devia ter tocado umas campainhas ao ouvido de Carmo Gomes;

5. Conheço uma pessoa bem mais idosa do que eu a quem telefonei, para saber dela e dar dois dedos de conversa. A propósito do confinamento social, disse-me que não prescindiria a nenhum título de ver e acarinhar os netos. Preferiria morrer. Esta é uma visão do mundo que Carmo Gomes descura e Ursula von der Leyen também. São ambos médicos mas a convicção inabalável que a ciência comanda a vida, por este andar, dará cabo da nossa num ápice. A única alternativa é exigir que os poderes políticos escolham soluções equilibradas, garantindo em simultâneo a protecção e a liberdade do idoso;

6. Efectivamente os idosos não são um risco, dão-nos muitas coisas, preenchem um lugar importantíssimo na comunidade, não podem ser considerados impuros, aqueles que têm de ser isolados. Designá-la-ei de ideia peregrina para não resvalar para outas consideraões;

7. Continuando a analisar este cenário, também há cientistas que fazem declarações sonantes sobre a inevitabilidade da morte (Pedro Simas, Expresso, 25 de Abril). Virologista, com declarações anteriores na televisão muito interessantes (Grande Entrevista RTP3, 2 Abril 2020) mas revelando agora alguma falta de sensibilidade, a que o jornal ajudou puxando o assunto para caixa alta, explicando que sendo a vacina uma solução demorada, há que perceber que temos de aceitar que muitos de nós ficarão pelo caminho. Isto é tudo verdade, eu já sabia que não era eterna mas dispensava esta crueza numa altura destas e certamente que não ajuda a enfrentar a ameaça. A perversidade entrou de roldão nas nossas vidas de braço dado com o Covid19 e nós não estávamos preparados para isto;

8. Os idosos não constituem um grupo homogéneo seja pela própria idade, seja pelas condições de saúde, seja pelo agregado social em que vivem, familiar, institucional ou individual. A ideia tão aberrante como esta de confinar os idosos até ao aparecimento de uma vacina acabaria de vez com muitos de nós. Onde e como é que se isolam os mais fragilizados, nas famílias e nas instituições? Ficam de parte, a dois metros, a olhar? Ou fechados num quarto sempre à espera que alguém completamente mascarado venha cuidar deles ou lhes traga comida? Ideia repugnante, não, nem pensem nisso. Os próprios idosos também têm de ser ouvidos. A idade não retirou o discernimento e a vontade, há que os atender. Os cientistas junto com os políticos têm de encontrar uma solução que defendendo os idosos não os ostracize. Os idosos têm direitos, têm de ser defendidos destas medidas extremas e as medidas a serem tomadas não podem contribuir para agravar seja a solidão seja a violência doméstica, ambas nossas conhecidas;

9. Os lares continuam a ser motivo de preocupação, nada que nos espante. Não vale a pena continuar a peregrinação pelo país a registar lares licenciados e lares ilegais, óbitos (40% dos óbitos são de pessoas institucionalizadas), pessoal despreparado, gestores que nunca deviam ter sido nomeados, instituições que nunca fizeram planos de contingência, que não zelaram pela segurança dos utentes. A moda corria de feição às IPSS, à Misericórdia e outras instituições; o pior foi quando o vento mudou. Tudo nas barbas do Ministério do Trabalho e Segurança Social – as declarações da Sra. Ministra são patéticas. O que vale a pena é analisar a situação com sangue frio e vontade de pôr cobro a uma situação desgraçada que nos envergonha. Façamos um exercício de análise: de um lado o passado, tudo o que sabemos, toda a informação recolhida até agora; do outro lado o futuro, o que é preciso reformular. Os lares ilegais não podem continuar a existir. Por acaso, o nosso Estado Social admite escolas ilegais? Por acaso, o Estado Social é brando com creches ou jardins de infância ilegais? Por acaso, o Estado Social é conivente com clínicas ilegais? São aos milhares, Sra. Ministra dixit, os utentes dos lares ilegais! Se dúvidas houvesse, ficou claro, afinal a Sra. Ministra conhece a estrutura que gere. O licenciamento tem a ver com os requisitos das instalações mas não tendo licença para abrir as portas, os proprietários fazem preços módicos e acomodam – imagine-se as condições! – os utentes. Preços módicos insuficientes para cuidar de os utentes com a dignidade que merecem, a incentivar a procura por cima de toda a ilegalidade com o conhecimento e maleabilidade do Ministério. Esta situação é intolerável. Precisamos de estudar e aprofundar, entre muitos mais parâmetros, o ratio utentes/pessoal, a qualificação do pessoal em toda a escala hierárquica, o tipo de vínculo e horário laborais, a qualidade das instalações, os locais onde as instituições são instaladas ou construídas. Não se diga que está tudo feito porque, nesse caso, é todo o Ministério que precisa de ser avaliado, o esquema mental que os enforma está viciado, não serve num estado democrático;

10. O Covid19 revelou a força do SNS, as questões que se colocavam de início sobre a capacidade do SNS perderam a voz, tudo positivo para o SNS. Mas o Covid19 também ajudou a clarificar aspectos que precisam de ser reavaliados e reorganizados o que tem de ser considerado muito positivo, uma oportunidade para o reforço do SNS. Entre essas questões, salta para a linha da frente a questão dos lares mas também a questão do modelo que queremos em matéria de apoio aos idosos. Os lares como existem, precisam de uma revisão mas teremos de ponderar a criação de outras soluções nomeadamente o reforço do apoio domiciliário, o envolvimento das estruturas locais autárquicas. Tudo matérias a exigirem debates nacionais e propostas alternativas. São mudanças profundas que o post Covid19 não pode omitir. Que esta crise profunda vire oportunidade para qualificar e reforçar o Estado Social.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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