As redes sociais são, cada vez mais, o maior tasco do país. Tu escreves sobre rendas, salários, transportes, o preço do pão, e aparece alguém a gritar que és um “subsídio-dependente”, não interessa se trabalhas no público ou no privado, se estás a receber apoios do estado ou a contribuir com os teus impostos para ele: “vai mas é trabalhar.” É uma espécie de cartão de ponto digital, passado por quem confunde debate público com inspeção laboral de caixa de comentários.
O mecanismo é simples e, por isso, para alguns pode parecer eficaz. Em vez de responder à ideia, atacas a suposta situação laboral de quem a levanta. Em vez de discutir o preço da casa, insinuas que quem fala não paga renda. Em vez de olhar para o dado, olhas para a foto de perfil. É um atalho confortável. Evita a fadiga dos factos e dá a pequena euforia de se ter dito qualquer coisa que parece um argumento equiparável à última coca-cola do deserto. Esbarra com o grande entrave de ser desonesto é demasiado básico.
A ironia maior é que a acusação costuma vir embrulhada numa noção estreita de trabalho, como se só contasse aquilo que se faz entre as oito e as cinco, de segunda a sexta, afinal, a pessoa deixa de existir no restante período. O resto é “não fazer nada da vida”. Mas a vida insiste em ser mais teimosa do que o cliché. Há quem trabalhe por turnos e comente às onze da manhã porque a noite foi passada num armazém. Há quem tenha dois empregos e, ainda assim, encontre tempo e paciência para participar na esfera pública. E há muito trabalho que nunca entra na folha salarial: cuidar dos miúdos, apoiar vizinhos, montar atividades numa associação, organizar uma campanha local para salvar um equipamento público. Tudo isso consome horas, energia, neurónios. Tudo isso é trabalho. Só não serve de crachá nas redes sociais para quem fiscaliza as vidas alheias.
Paralelamente, há quem se convença de que o ato de trabalhar é um ato passivo, como se produzir fosse apenas obedecer, cumprir horários e calar. Esta visão empobrece o trabalho ao transformá-lo numa coreografia de tarefas onde a cabeça fica do lado de fora. Sucede que todo o trabalho digno envolve julgamento, crítica e proposta: escolher prioridades, questionar procedimentos, melhorar métodos, reivindicar condições. Sem isso, o trabalho degrada-se em rotina e medo; com isso, volta a ser uma prática viva, com responsabilidade e sentido. Desligar o pensamento do trabalho é retirar ao trabalhador a sua cidadania no local onde passa grande parte da vida.
o mundo melhora quando mais gente participa e piora quando a conversa é policiada por fiscais da suposta produtividade alheia
A democracia não vive só do voto de quatro em quatro anos. Vive da participação contínua. Partidos políticos, assembleias de moradores, coletivos informais, associações juvenis. Grupos que se juntam para pressionar por um autocarro que chegue a horas ou por um centro de saúde que não feche. Dizer a estas pessoas que “vão trabalhar” é uma forma de lhes dizer que a democracia não é com elas. E, no entanto, sem elas, a democracia fica mais pobre, mais lenta e, sobretudo, mais fácil de capturar por quem tem tempo pago para se mexer nos bastidores.
Outra coisa que este bordão revela é uma espécie de fetiche moral com a ocupação permanente. Como se “estar sempre ocupado” fosse sinónimo de virtude e “ter um momento para escrever um post” fosse decadência. É a ética do cansaço como prova de carácter. De caminho, naturaliza-se ainda mais a precariedade e reduz-se um trabalhador a um mero cumpridor de horários, de preferência mudo. O tempo para esta gente é suspeito, quando devia ser direito. Queimar-se para passar no exame de respeitabilidade é um mau negócio, para cada um e para a comunidade.
Há ainda um efeito colateral que raramente se discute. A conversa do “vai mas é trabalhar” funciona como um silenciador. Não dá estatuto nenhum, não traz qualquer argumento, mas tenta calar. Muita gente que tem boas ideias começa a achar que é melhor ficar quieta para não ser diagnosticada de “desocupada”. E assim a praça pública esvazia-se da pluralidade que lhe dá qualidade. Ficam os profissionais do empurrão de ombro, sempre prontos a medir caráter a partir do tempo de resposta a um comentário. Um mundo estranho, este.
Se quisermos desmontar isto sem grandes dramatismos, dá para fazê-lo com três perguntas simples. Primeiro, o argumento responde ao que foi dito ou ao currículo imaginário de quem disse? Se a resposta for a segunda, podemos passar à frente. Segundo, a ideia ficava mais fraca se viesse com assinatura anónima, de um eventual “trabalhador de bem”? Se não, então o problema não está no autor, está no desconforto que a ideia provoca. Terceiro, quem está a dizer “vai trabalhar” sabe o que a outra pessoa faz? Quase sempre não sabe. E, quase sempre, não quer saber. O desconhecimento (consentido) é uma característica deste método que lhes parece infalível.
Também convém reconhecer um ponto que causa alergia e, por isso, é bom pô-lo em cima da mesa. O técnico de informática que organiza uma petição no fim de semana não fica menos técnico. A enfermeira que intervém num debate sobre saúde não fica menos enfermeira. O estudante que constrói uma associação local não fica menos estudante. A ideia de que a participação cívica rouba legitimidade profissional é um vício de visão. O que a participação faz, muitas vezes, é trazer para a conversa a experiência concreta de quem anda com as mãos na massa.
E sim, há quem projete nos outros o que não gosta de encarar em si. A tirada “este gajo não faz nada da vida” quase nunca é válida. Soa a um desabafo de quem desconfia que a sua própria rotina é mais cansativa do que transformadora e tem medo de descobrir que há tempo possível para se envolver nas coisas em que acredita. É mais fácil apontar o dedo a um desconhecido do que negociar com a própria agenda, cada vez mais penosa devido aos atuais ritmos de trabalho. Mas não precisamos de humilhar ninguém para perceber o óbvio: o mundo melhora quando mais gente participa e piora quando a conversa é policiada por fiscais da suposta produtividade alheia.
No fim, o truque mais simples continua a ser o melhor. Responder com conteúdo. Trazer dados, contar histórias, ligar experiências. Quem quiser fazer de árbitro da vida alheia que se entretenha com o apito. Quem quiser discutir ideias tem sempre campo para jogar. E, já agora, trabalhar também é isto. Pensar, escrever, organizar, propor. É trabalho que não se cronometra em folhas de Excel, mas que paga dividendos em coisas que não entram no IRS. Tempo livre, cidades mais habitáveis, serviços que funcionam, direitos sociais.
O resto é barulho. E o barulho, como se sabe, passa. As ideias boas, quando insistem, ficam.