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Os factos alternativos sobre a canábis

Não há nada de diferente entre noticiar overdoses de canábis (coisa que simplesmente não existe), os factos alternativos de Kellyanne Conway e as “fake news” dos apoiantes de Trump.

A enormidade da indigência jornalística que cobriu, há duas semanas, a apresentação do relatório anual sobre a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências não é um facto novo. Mas continua a ser um facto desprezível. Talvez a tanta indigência, desinformação e mau serviço público devêssemos começar a chamar “trumpismos” – não há nada de diferente entre noticiar overdoses de canábis (coisa que simplesmente não existe), os factos alternativos de Kellyanne Conway e as “fake news” dos apoiantes de Trump. Diários como o JN já nos fizeram perceber há muito que preferem a indigência escatológica “à là” Correio da Manhã a qualquer forma correcta de noticiar um evento.

O mais grave neste assunto nem é a anencefalia voluntária de alguns periódicos. É o uso interessado que alguns responsáveis públicos fazem deles. A associação do consumo de canábis a formas de esquizofrenia ou episódios psicóticos isolados tem sido utilizada como argumento para diabolizar a canábis e refutar a hipótese da legalização desta substância. Pouco importa que ninguém proponha a ilegalização do álcool ou do tabaco, drogas que, comprovadamente têm efeitos muito mais nefastos sobre a saúde pública. Pouco importa que a canábis tenha importantes efeitos terapêuticos, coisa que o tabaco e o álcool não têm. Pouco importa que o efeito aditivo da canábis seja infinitamente inferior a qualquer uma destas substâncias legais. Pouco importa que as consequências do álcool e do tabaco em Portugal se exprimam em milhares e dezenas de milhares de doentes e mortes, ao passo que a canábis…. quando muito, terá um efeito marginal ao despoletar psicoses que, mais tarde ou mais cedo, poderiam surgir de qualquer forma.

Mas o que realmente importa é que os nossos representantes institucionais e políticos não sejam confrontados com a incoerência e inconsistência do seu discurso proibicionista. Que não haja quem, na vida jornalística ou na vida política, desmonte os “estudos” que são apresentados como “certos” para justificar o seu ódio à canábis. Que ninguém seja capaz de questionar a linguagem usada no relatório sobre a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências que sugere que as ditas “overdoses” de canábis estejam a aumentar.

A ilegalidade da canábis não é racional e tem pouco de responsável e muito de moralizador. Ignora que por todo o mundo as políticas proibicionistas não combatem o problema, agravam-no, não permitindo uma abordagem responsável ao consumo e uma estratégia de redução de riscos, a única que demonstrou ser eficaz em mitigar os problemas relacionados com o excesso do consumo desta substância. Ignora também que a “guerra às drogas” dos Americanos foi e é muito mais do que o combate aos consumos irresponsáveis – é uma estratégia dissimulada de encarceramento de indivíduos, muitas vezes com motivações raciais e eugenistas, tal como o demonstrou recentemente o famigerado Presidente das Filipinas.

Em 2017 já não precisamos de mais “estudos”, “discussões” ou “debates” sobre a canábis. Precisamos de legalizar o seu consumo e o seu cultivo. Nada mais, nada menos. Tudo o resto é hipocrisia, ignorância e preconceito que bebe exactamente da mesma fonte que não queria deixar as mulheres abortar ou inseminarem-se livremente, os homossexuais casarem ou adoptarem crianças, as pessoas trans mudarem o seu nome, ou desejava ver os consumidores de drogas na cadeia. A mesma fonte e a mesma água que continuam a não querer que escolhamos a forma como morremos e que não quer ver o trabalho sexual legalizado. Se não combatemos esta fonte em todas estas vertentes, seremos sempre uma versão pálida e “meio acabada” de progresso e não uma força de transformação social. Seremos sempre vítimas do “trumpismo” e dos factos alternativos que surgem muitas vezes dos sítios que menos esperamos.

 

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