Os esquecidos do BPN

porMariana Mortágua

23 de dezembro 2016 - 16:37
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A facilidade da engenharia financeira dos novos donos do BPN contrasta com a lamentável forma como foram tratados os seus ex-trabalhadores.

Depois da infeliz nacionalização, os ativos "tóxicos" do BPN foram divididos por três entidades - Parups, Parparticipadas e Parvalorem. A esta última se destinaria a maioria dos ativos e trabalhadores rejeitados pelo comprador do BPN já limpo. A operação foi decidida no Governo de Passos e merece a vossa atenção: o Governo injetou 600 milhões no BPN e vendeu-o ao BIC por 40 milhões. Para efetuar a compra, os acionistas do BIC (família Amorim e Isabel dos Santos) pediram um empréstimo ao próprio banco. Depois, as duas entidades fundiram-se, mas foi o BPN que absorveu o BIC para que os novos donos pudessem deduzir fiscalmente as enormes perdas passadas do BPN. E o crédito? Foi abatido usando parte dos 600 milhões que os contribuintes tinham injetado no BPN antes da venda.

A facilidade da engenharia financeira dos novos donos do BPN contrasta com a lamentável forma como foram tratados os seus ex-trabalhadores. Os que não foram escolhidos pelo BIC, passaram contra a sua vontade para a Parvalorem. A transferência de posto de trabalho sem consentimento é ilegal, como reconheceu já a Provedoria de Justiça, mas nada demoveu Maria Luís Albuquerque, e o assunto arrasta-se agora nos tribunais.

Desde 2012 que a Parvalorem é gerida por Francisco Nogueira Leite, um antigo colega de Passos na Tecnoforma. Desde então, já 55 trabalhadores foram incluídos em dois despedimentos coletivos, e 13 rescindiram. Os que saíram como os que ficaram relatam o clima de assédio, o medo perante a permanente ameaça - sobretudo se pertencer ao sindicato ou à comissão de trabalhadores -, falsas contas de compensação para tornar o despedimento menos vantajoso do que a rescisão. Em suma, o abuso.

Alega a Administração que o trabalho não chega, mas a verdade é que os outsourcings não têm faltado. A contabilidade foi entregue à Gesbanha, de Francisco Banha, que tinha trabalhado para a Tecnoforma. No final de 2013, a Parvalorem passou metade da sua carteira de ativos para dois privados: Logicomer e Finangest/Intrum Justitia. O objetivo era mesmo despedir rapidamente os trabalhadores da Parvalorem, apesar destes fazerem o mesmo trabalho por menos. O negócio era tão bom que, em 2015, a Intrum comprou a Logicomer por 11 milhões de euros.

A Parvalorem é propriedade pública, e a forma como tem sido gerida merecia uma auditoria. Pela mesma razão, os seus 168 trabalhadores deveriam ser protegidos, e não expostos a uma lista infindável de ilegalidades e abusos.

Sobre o/a autor(a)

Mariana Mortágua

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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