Os erros de Inês

porNuno Pinheiro

22 de dezembro 2022 - 14:27
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A forma como os moradores do 2º Torrão têm sido tratados é inaceitável. Acabar com a herança do colonialismo começa por tratar estas pessoas com a dignidade que merecem, com os direitos que têm e que não são diferentes dos meus, dos nossos, ou dos da Presidente da Câmara.

Segundo Torrão - fotos de Nuno Pinheiro

Deixem-me esclarecer primeiro. Não tenho nada contra Inês de Medeiros e acredito que não seja pessoalmente racista. Depositei até alguma esperança na sua experiência de vida mais diversificada e com ligações à cultura, face a um PS Almada muito provinciano e conservador, centrado, sobretudo na luta contra o PCP. Sou, também, um admirador de seu pai, grande divulgador da música a quem, posso não dever o gosto pela música, já que a minha mãe tinha tocado no famoso (em Almada) Septimino de Saxofones e, mesmo não nos encorajando a aprendizagem da música, em casa ouvia-se música, boa música. Porém sei que foi assim que muitos da minha geração começaram a apreciar música, nomeadamente música clássica que conseguia dessacralizar. Também transmitia a ideia de que a cultura é um direto de todos, o que me é muito caro. O ter irmãs talentosas também ajudam à simpatia que lhe dedico. Pelo contrário, espero que este texto, se o ler, lhe possa ser útil.

Revi o vídeo do recente episódio (de que muito se tem falado) da presidente da Câmara de Almada a retirar a palavra a uma cidadã por esta ter referido o colonialismo para tentar perceber o que estava em causa. Verifico que há um erro inicial: A Presidente da Câmara Municipal sentiu como ofensa pessoal aquilo que era a caracterização política de um sistema. Acredito que possa não ter entendido bem o que foi dito, mas, talvez o problema seja o centrar a política na sua pessoa, não sendo capaz de fazer a distinção entre pessoa e instituição. Um segundo erro é acreditar e, pior, ver-se como uma “autoridade suprema”, tal coisa não existe no sistema político português, nem em nenhum sistema democrático. Parece não ser a única nessa ideia de “O Estado sou eu”.

“Já me vi livre há muito da herança colonial”, disse a presidente, e eu lembro Eduardo Lourenço que há anos disse que, apesar de politicamente se ter feito a descolonização, esta estava longe de estar feita nas mentalidades. Estas palavras continuam atuais, as reações que temos visto a tudo o que mexa com essa herança, nomeadamente as reações à recente referência ao Massacre de Wiriamu por Augusto Santos Silva, mostram a atualidade dessas palavras. Muitas reações a este episódio, também o mostram. Muitos acham que quem mora ou está a ser desalojado do 2º Torrão ainda devia estar grato, porque na sua terra tinha piores condições. O africano, ou afrodescendente continua a ser o colonizado numa espécie de colónia interna em que depende da bondade do branco. Se isto não é uma mentalidade colonial, não sei o que o será.

Ouvimos um discurso semelhante vindo de quem acusa de racismo os que combatem contra o racismo. Os mesmos que se manifestam dizendo que Portugal não é racista. Acreditando, talvez, no velho mito luso tropical, nega-se colonialismo e racismo. Racismo ou colonialismo são, aliás, palavras proibidas, o que mostra a sua sobrevivência enquanto trauma. Repare-se que neste caso a reação à palavra colonialismo não foi a argumentação, mas sim o silenciamento.

Mais importante, que esta argumentação ideológica, é a forma como estas pessoas vivem, as políticas em relação a este bairro ao longo de 40 anos, ao longo dos últimos 6 anos, e a forma como são tratados os realojamentos. Não estamos perante restos de um colonialismo, a poucos quilómetros do centro de decisões políticas? Estive várias vezes no 2º Torrão, estive lá no 1º dia de demolições, depois desta polémica decidi lá voltar. Não conheço os Musseques de Luanda, embora tenha passado por favelas em Buenos Aires. Conheci Bairros de Lata em Portugal no passado, felizmente não restam muitos. Na velha Quinta da Alegria, moravam portugueses brancos pobres, muitos vindos da província, empurrados pela mecanização do trabalho agrícola, mas Portugal, felizmente mudou muito. Aqui vejo mais pessoas de origem africana, alguns ciganos também. O 2º Torrão é muito próximo da ideia que tenho dos musseques, há uma sensação de ter sido transportado para outro continente, ou talvez para Portugal salazarista. Nem sei como não se lembraram disso como promoção turística, rivalizaria com a vista do Bairro Amarelo e a sua vista. O 2º Torrão manteve-se, com a indiferença de autarquias e estado central, durante décadas, seria assim se as pessoas não fossem aquelas?

No processo de realojamento, feito sem capacidade de previsão (havia relatórios a apontar o perigo há 3 anos), sem respeito ou humanidade, as coisas correriam assim se as pessoas fossem outras? Haveria esta indiferença se não se achasse que estas pessoas deviam estar gratas, já que teriam condições muito piores nos locais de onde provêm? A questão é mesmo considerar estes realojamentos um favor, uma caridade, para pessoas a quem não se reconhece direitos. A quem não se reconhece a habitação como um direito.

Se o primeiro erro é achar que a referência a um sistema colonial é uma ofensa pessoal, o pior erro é não perceber que Renata Camargo, pessoa que se tem esforçado pelos direitos das pessoas do 2º Torrão, tem razão e que a forma como os moradores do 2º Torrão têm sido tratados é inaceitável. Colonial? É o que sinto quando lá estou, é o que sinto quando piso aquelas “ruas”, é o que sinto sabendo quem lá vive e onde trabalha. Também é o que sinto quando vejo aquela escola que terá as piores instalações do país, mas para a qual não existem planos de substituição ou requalificação, tendo o PS sido o único partido a não votar uma resolução na Assembleia da República nesse sentido.

Que palavra podemos usar quando há pessoas realojadas em casas sem o mínimo de condições, com fugas de gás, por exemplo. Sobre pessoas alojadas no Parque de Campismo de Monsanto, sem transportes ou local para fazer compras, de famílias alojadas num hostel em Lisboa, uma família por quarto uma placa elétrica e uma casa de banho para todos. Sobre pessoas para as quais não se encontra nenhuma solução. Que palavra usar para todo um processo conduzido de forma trapalhona e antidemocrática sem considerar a existência de laços e de uma comunidade. Não, o problema não é a palavra, mas a forma como primeiro se ignorou um problema, depois se fingiu que não existia e, finalmente, se responde de forma antidemocrática às críticas.

Acabar com a herança do colonialismo? Não poderia estar mais de acordo. Afinal, sou de esquerda por conhecer locais como este, por não os achar aceitáveis, por defender que todos têm os mesmos direitos. Mas acabar com essa herança começa por tratar estas pessoas com a dignidade que merecem, com os direitos que têm e que não são diferentes dos meus, dos nossos, ou dos da Presidente da Câmara.

Segundo Torrão - fotos de Nuno Pinheiro

 

 

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL
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