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Os equívocos de Sousa Tavares

Uma certa hipersensibilidade pátria de que Miguel Sousa Tavares se toma como ventríloquo procura conter o debate sobre o passado colonial e sobre as suas representações no presente. Mas ele está aí, vai continuar e para o fazer precisaremos de todas as vozes disponíveis e lúcidas.

Mário Lúcio Sousa escreveu um texto, no jornal Público, sobre a necessidade de um debate aberto em Portugal acerca das estátuas e os monumentos que evocam o passado colonial. O músico e escritor cabo-verdiano falou aí da invisibilidade da Lisboa negra, da relação problemática de Portugal com o colonialismo e das disputas em torno das materializações públicas da memória. Miguel Sousa Tavares não gostou do texto e elegeu-o como motivo da sua última crónica semanal no Expresso. O texto de Sousa Tavares está recheado de pequenos apontamentos infelizes que seria fastidioso elencar. Ainda assim, a sua opinião acaba por ser interessante justamente por se revelar, entre outras coisas, como um sintoma do peso da memória colonial enquanto tópico narcísico nacional(ista).

Sousa Tavares entende que Mário Lúcio não tem direito a expressar a sua opinião sobre o tema por não ser português. “Por mais que este país o acarinhe e premeie”, diz o articulista depois de lhe pesquisar apressadamente o currículo, Mário Lúcio seria aqui um “estrangeiro”, condenado por isso ao mais fundo dos silêncios: “que legitimidade tem um estrangeiro para vir pregar o derrube de estátuas, ou do que quer que seja, num país que não é o seu?” Leitor habitual de Sousa Tavares, não creio que ele aplique este zeloso critério aos seus próprios escritos. Como, aliás, me parece incorreto ler o artigo de Mário Lúcio como uma “pregação” destinada a incentivar o “vandalismo” generalizado contra as estátuas e monumentos.

Mas avancemos. Até porque, em boa verdade, Sousa Tavares não propõe apenas que se interdite a palavra a um “estrangeiro” genérico. O estrangeiro que ilustra o seu texto é o mal-agradecido estrangeiro nascido no ventre dos ex-colonizados. Em suma, esses ingratos tratados aqui como “quase tão portugueses como nós” e que se dão atrevidamente à liberdade da crítica. Não falta mesmo o velho e insidioso elogio a Cabo Verde em contraponto às restantes ex-colónias, nem a enésima referência à deputada Joacine Katar Moreira, ordenando-lhe que fale sobre a Guiné. Para Sousa Tavares, o direito à palavra deveria confinar-se aos portugueses. Ou, mais concretamente, ao curto ideal-tipo de português que lhe sobrevive na cabeça.

O artigo de Sousa Tavares não deixa ainda de revelar o alçapão argumentativo que surge quando se articula a imaginação de identidades coletivas e os processos de apropriação da memória colonial. Que acontecimentos históricos assumimos como “nossos”? Sousa Tavares não tem dúvidas. Por um lado, sugere uma relação de propriedade com uma multisecular “epopeia das Descobertas Portuguesas”, ao qual estaríamos – seja o que for este “nós” coletivo – ligados pela história e pelas múltiplas reverberações culturais que ela foi produzindo. Por outro lado, e confrontado com a escravatura e com o papel destacado dos portugueses, que reconhece, Sousa Tavares opta por dizer que não sente a dor e a violência desse passado. Ou seja, neste exercício de depuração, escolhe glorificar o que lhe interessa e afastar-se do que lhe incomoda, mesmo que o estafado argumento da distância temporal não possa aqui ser usado para distinguir “Descobertas” de escravatura. Nem que se possa propriamente considerar que a escravatura não tenha deixado amplos legados familiares, económicos, sociais e culturais nas sociedades colonizadas e também, como é óbvio, nas antigas metrópoles colonizadoras.

Por fim, Sousa Tavares imagina hordas de vândalos a postos para cegamente destruírem monumentos e estátuas, equivocamente interpretados como espelhos diretos da História e recetáculos de uma autoestima ameaçada. Nesse mundo alternativo, onde jura não haver “por cá nenhuma estátua a esclavagistas” (tirando a Infante D. Henrique, acrescenta logo a seguir), a “história limpa” estaria a ganhar e seria apenas “por pudor” que não teríamos ainda no país “um Museu das Descobertas”. A irrealidade desta leitura fica evidente se pensarmos no modo como, em Lisboa e noutras cidades do país, persiste uma paisagem memorial – feita de monumentos e estátuas, de museus e de parques temáticos, de nomes de ruas e praças, etc. – que adocica o encontrão colonial, que valoriza benfeitores que enriqueceram com a escravatura ou chefes das chamadas “campanhas de pacificação”, e que fala de “heróis do Ultramar” ao mesmo tempo que esquece o que a democracia portuguesa deve à derrota do colonialismo.

No fundo, uma certa hipersensibilidade pátria de que Miguel Sousa Tavares se toma como ventríloquo procura conter o debate sobre o passado colonial e sobre as suas representações no presente. Mas ele está aí, vai continuar e para o fazer precisaremos de todas as vozes disponíveis e lúcidas. Desde logo aquelas, como a de Mário Lúcio Sousa, que nos trazem um olhar dos antigos territórios colonizados, para esta conversa urgente sobre uma história partilhada.

Sobre o/a autor(a)

Historiador, doutorado em História, investigador do CES/UC.
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