Num país livre, todos têm direito à sua opinião. Porém, não têm direito aos seus próprios factos: esses são o que são e não se vergam à vontade de quem os queira mobilizar para ataques políticos. É por isso que quando lemos o artigo de Sérgio Guerreiro, aqui no Observador, a acusar o Bloco de Esquerda de hipocrisia por, alegadamente, não defender os direitos humanos e a liberdade no Irão, em suposto contraste com o que fazemos em relação à Palestina, a dúvida que se coloca é: será este cronista completamente ignorante do que se passa à sua volta? Ou, o que é com certeza mais grave, considerará que o respeito pela realidade dos factos é secundário face à marcação de pontos junto de eventuais leitores menos informados?
Vamos então aos factos. De todos os partidos portugueses, o Bloco de Esquerda foi o primeiro a apresentar na Assembleia da República um voto de solidariedade com a mobilização popular no Irão e de condenação da repressão sobre os protestos. Fê-lo a 12 de janeiro deste ano, escassos dias após o início da atual vaga de protestos e repressão governamental. Nisso foi aliás seguido – e bem – por outros partidos, como a Iniciativa Liberal, insuspeita de simpatia para com o Bloco de Esquerda, que no seu próprio projeto de voto de solidariedade, datado de duas semanas depois, reconhece explicitamente a posição expressa pelo Bloco.
Mais factos. Recuando até à vaga de protestos anterior, em 2022, não teria sido difícil ao cronista encontrar os projetos de voto de pesar apresentados pelos deputados do Bloco pelas mortes, às mãos da polícia da moralidade iraniana, de Mahsa Ahmin (em setembro) e de Asra Panahi (em outubro) ou, já em outubro de 2024, o projeto de resolução do Bloco de Esquerda em apoio às mulheres do Irão e à sua luta pela liberdade.
São apenas alguns exemplos e poderia dar muitos mais porque, na realidade, a posição do Bloco é e sempre foi plenamente consistente. O Bloco nunca falhou na denúncia da repressão da ditadura teocrática e na solidariedade para com as muitas vítimas da sua repressão. Quando o cronista imagina que o Bloco, por uma qualquer suposta lógica “campista” antiamericana, toma o partido ou transige com ditaduras, está a imaginar um Bloco de Esquerda que corresponde porventura aos seus próprios desejos, mas não à realidade. Somos consistentes e intransigentes na defesa da liberdade, da democracia, da dignidade e dos direitos humanos, sempre e em toda a parte.
Aliás, é precisamente por isso que, a par da veemente denúncia da ditadura iraniana, também não transigimos com as intenções de ingerência norte-americana ou do genocida governo israelita, que têm apenas os seus interesses próprios em mente e seguramente não os do povo iraniano. E que não esquecemos o caráter também brutalmente repressivo da ditadura do Xá Reza Pahlavi, entre 1941 e 1979, cujos herdeiros procuram agora encaminhar os protestos populares no sentido de uma tentativa de restauração da monarquia. Porque o mundo não é a preto e branco, não temos de escolher entre apoiar entre más alternativas: o futuro de um Irão democrático, livre da ditadura dos ayatollahs, será decidido livremente pelo seu povo – não pelos EUA, por Israel ou pelos herdeiros da ditadura anterior.
Isto talvez permita a Sérgio Guerreiro entender porque é que Catarina Martins, com todas as suas provas dadas de solidariedade para com as vítimas de repressão da ditadura iraniana, se absteve na votação da resolução do Parlamento Europeu sobre este tema que teve lugar a 22 de janeiro (note-se, dez dias depois do Bloco de Esquerda apresentar o seu voto de solidariedade sobre este tema no parlamento português). É que é não só possível como inevitável que, atendendo ao quadro de valores atrás exposto, se esteja plenamente de acordo com a intenção expressa no título de um projeto de resolução, mas se rejeite boa parte do seu conteúdo e em especial a intenção de legitimação de uma intervenção externa que o perpassa.
Ou permitiria entender, se houvesse boa-fé e respeito pela realidade dos factos independentemente das divergências políticas. Mas sabemos que o debate político atual é pouco dado a essas coisas. É mais fácil e expedito marcar pontos através da criação e exploração de factos alternativos.
Artigo publicado em Observador.pt a 13 de fevereiro de 2026