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Os alunos que o PISA esconde

Não podemos confundir o bom desempenho de alguns com o bom desempenho da escola. Temos de repensar a educação para que ela se torne de facto naquilo que gostamos de pensar que é: um espaço para todos. o PISA veio mostrar-nos que há ainda um longo caminho a percorrer.

Os nossos alunos estão de parabéns. Desde 2000, altura em que Portugal começou a participar no estudo internacional Programme for International Student Assessment (PISA), que a média dos resultados a Português, Ciências e Matemática tem vindo a melhorar de forma consistente. Apesar da crise, do clima conturbado dos últimos anos, dentro e fora das escolas, os nossos estudantes de 15 anos saíram da cauda da Europa, e estão, pela primeira vez, acima da média da OCDE.

No entanto, se olharmos atentamente para os números, há dados que não podem descansar-nos. No final do 3º ciclo, em 2015, havia menos 15 mil alunos no ensino regular do que em 2012, mas os mesmos 45 mil em percursos alternativos, alunos esses que não foram contabilizados pelo PISA.

Na OCDE, por regra, aos 15 anos, os alunos frequentam o equivalente ao 10.º ano português - porém, em Portugal apenas 50% cumprem este requisito! Somos o terceiro país que chumba mais alunos (só a Bélgica e a Espanha nos ultrapassam), com uma extremamente preocupante taxa de retenção de 32,5%. Um olhar mais atento sobre os resultados globais deste grupo etário permite verificar que o desempenho médio é bom entre os que frequentam o 10.º ano, mas muito fraco entre os que já chumbaram várias vezes, e portanto continuam no 7.º ou 8.º ano.

A conclusão é óbvia: a retenção não permite recuperar alunos, limita-se a excluí-los do processo de aprendizagem, até que são escoados para fora do sistema. Em vez de reconhecer que combater e ultrapassar as dificuldades de aprendizagem entre pares é um dos objetivos do sistema de ensino, e apesar do despacho normativo, com mais de uma década, que estipula que um aluno só deve ser retido em caso excecional, e até do parecer do CNE contra a “cultura da retenção”, neste indicador pioramos em relação a 2012.

Podemos sempre, é certo, optar por realçar que os “alunos de topo” estão a melhorar em todos os domínios. Mas essa é uma visão da escola como espaço de exclusão, uma espécie de filtro para acentuar as desigualdades. Para bons ou maus alunos, a escola é mais do que uma máquina de parir pautas; é o local onde o conhecimento existe de mãos dados com a partilha de ideias e experiências, onde todos fazem parte do mesmo projeto de sociedade. É fundamental que um aluno de 15 anos saiba, mais do que qualquer infindável conteúdo programático, que todos os colegas têm as mesmas oportunidades de construir um futuro positivo para todos, independentemente do seu meio ou sua origem social.

E este é o nosso enorme desafio: não confundir o bom desempenho de alguns com o bom desempenho da escola. Temos de repensar a educação para que ela se torne de facto naquilo que gostamos de pensar que é: um espaço para todos. o PISA veio mostrar-nos que há ainda um longo caminho a percorrer.

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