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Onde está o dinheiro?

O temor da inflação é exagerado, uma modesta recuperação não criará espiral de preços e é prudente manter a política de apoio ao investimento e emprego.

E o que é que vem depois deste lento desconfinamento? A questão que muitos economistas agora discutem é esta: com o início da recuperação, haverá inflação e terão de ser tomadas medidas restritivas, voltando à velha receita dos juros altos? Não aprenderam nada.

Quem poupa e como vai gastar?

Segundo a revista “The Economist”, que estudou 21 dos países mais ricos, a poupança disparou durante a pandemia para 6 biliões de dólares, o dobro do que ocorreria em tempos normais. É uma evolução impressionante, mas que seria de esperar, pois não só o consumo foi reduzido pelas dificuldades naturais de compras que não sejam online, como a precaução leva muitas famílias a poupar mais, na incerteza sobre o emprego e as condições futuras. Esse acréscimo extraordinário da poupança é particularmente evidente no Canadá e nos EUA, onde chegará a 10% do PIB, menos acentuado em França e na Alemanha, onde ainda assim supera os 2% do PIB.

Voltar a medidas recessivas, como políticas monetárias restritivas, seria criminoso

Estes números, no entanto, escondem uma diferença social. Na Europa, os dados indicam que é sobretudo quem tem mais que poupa mais, sendo que os pobres e remediados têm pouca margem para poupança, como acontece normalmente; nos EUA, foram sobretudo os mais pobres que pouparam mais. A explicação para isso parece estar no financiamento direto às famílias: o plano Biden entrega 1400 dólares a cada adulto e já tinha havido outros cheques antes. Os pobres guardam esse dinheiro para o que der e vier.

Mudar de agulha contra a inflação?

Entram aqui os alarmistas, avisando que as poupanças poderão ser gastas freneticamente quando acabar a pandemia e que isso impulsionaria uma alta inflação. Na verdade, antecipam cerca de 3% nos EUA e menos na Europa, ou seja, pouco mais do que até agora, mas aproveitam o alarme para pedir restrições.

O argumento para esta previsão é frágil. O plano de investimento infraestrutural de Biden é enorme, 3 biliões de dólares, mas não se sabe o que será aprovado nem como será pago (se for com impostos sobre grandes empresas, como propõe, seria uma redistribuição de rendimentos). O efeito inflacionista pode ser reduzido e é importante começar a transição climática. Outros gastos, como os apoios orçamentais na pandemia, foram em média 5% do PIB (menos em Portugal), é nisso que os alarmistas se baseiam para prever uma grande procura quando a pandemia aliviar e, desse modo, o aumento dos preços. Mas o sistema produtivo está intacto e a oferta pode responder à procura. No caso português, a experiência diz-nos que os consumidores são cuidadosos e não vão gastar do dia para a noite os mais 13,1 mil milhões de euros que depositaram nos bancos desde o início da pandemia. Assim sendo, o temor da inflação é exagerado, uma modesta recuperação não criará espiral de preços e é prudente manter a política de apoio ao investimento e emprego. Voltar a medidas recessivas, como políticas monetárias restritivas, seria criminoso.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 16 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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