Ocupas pelo Fim ao Fóssil: adivinhem quem voltou

porManuel Afonso

13 de abril 2023 - 23:28
PARTILHAR

Nas próximas semanas, escolas e faculdades, desta vez de Norte a Sul do país, voltarão a estar ocupadas. O mote está dado: exigem o fim aos combustíveis fósseis até 2030, eletricidade 100% renovável e acessível para todas as famílias até 2025.

Está por semanas, quase que por dias. Já anunciaram: as Ocupas pelo Fim ao Fóssil, o movimento que, em novembro passado, ocupou diversas escolas e faculdades, estão prestes a voltar. Nas próximas semanas, escolas e faculdades, desta vez de Norte a Sul do país, voltarão a estar ocupadas. O mote está dado: exigem o fim aos combustíveis fósseis até 2030, eletricidade 100% renovável e acessível para todas as famílias até 2025.

Já hoje, cerca de metade da população terrestre habita em zonas com stress hídrico; e mais de mil milhões vivem em zonas que serão engolidas pelo nível do mar

Não podia ser mais a tempo. Há menos de um mês, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU divulgou mais um relatório síntese. Foi lido como o «último aviso da ciência»: o próximo relatório será só em 2030 e se, até então não houver uma inversão radical de rumo, será impossível não ultrapassar os limites de aquecimento tidos como sustentáveis. O mundo já aqueceu 1,1C° em relação ao período pré-industrial e a ciência diz-nos que, a partir de 1,5C°, entramos numa espécie de abismo climático. O grau de fenómenos climáticos extremos que podem despontar a partir daí colocarão em perigo a vida como a conhecemos. Só se iniciarmos rapidamente uma transição que elimine o uso de combustíveis fósseis nos países desenvolvidos já nos próximos anos e, nos restantes países, até 2050, poderemos chegar a 2100 abaixo desse limitar. Se mantivermos o atual rumo, diz-nos o recente relatório, entraremos no século xxii acima dos 3,2C°. É difícil de imaginar o que isso significa. Já hoje, cerca de metade da população terrestre habita em zonas com stress hídrico; e mais de mil milhões vivem em zonas que serão engolidas pelo nível do mar. Pensemos como será com um aumento de temperatura de mais do dobro!

Portugal não ficará bem neste quadro: é dos países da Europa que mais será fustigado pela crise climática

Portugal não ficará bem neste quadro: é dos países da Europa que mais será ― que já é! ― fustigado pela crise climática. São os incêndios e a seca, que só tenderão a piorar. Mas serão também milhares de pessoas, em cidades como Faro, Tavira, Nazaré ou Figueira da Foz, que verão as ruas e casas onde moram perigadas pela subida do nível das águas já em 2050. É o que nos diz um estudo de Benjamin Strauss, publicado em 2019 na Nature Comunications e noticiado no Diário de Notícias. Que hoje os estudantes ocupem as escolas, para que amanhã não sejam as águas a fazê-lo!

Confrontar um governo fóssil

Entretanto, o governo de António Costa avança com a expansão do porto de Sines para receber mais gás fóssil; a Galp aumenta a extração e importação de gás vindo de Moçambique, Nigéria e dos EUA; a ferrovia degrada-se e discutimos a construção de um (ou dois?) novo aeroporto que não só aumentará a queima de combustíveis fósseis como servirá um modelo económico dependente do turismo e da subsequente especulação financeira e imobiliária.

Por isso é central este movimento, as Ocupas pelo Fim ao Fóssil. Na senda das grandes greves estudantis pelo clima, lançadas em 2019 por Greta Thunberg e que mobilizaram dezenas de milhares por cá, este movimento pode abrir caminho. Nestes dois momentos, 2019 e 2022, foi o movimento estudantil quem mais polarizou a sociedade para o combate à crise climática. Marcou um antes e um depois. Uma nova geração ativa e ativista despertou. Mesmo as Ocupas de novembro, não tendo alcançado a dimensão das greves de 2019, obrigaram o governo a responder, alcançaram a consciência de largos setores da população e trouxeram o debate para o centro da vida política. Provavelmente, tirando quando os trabalhadores da indústria fóssil entram em greve, nunca os grandes poderes do gás e do petróleo tanto arregalaram os olhos e rangeram os dentes. Assim foi e assim será porque a juventude em luta pelo clima soube criar alianças, confrontar o governo, ser radical ao mesmo tempo que dialogava com a sociedade ― com os colegas, com os professores, os pais e os cidadãos anónimos.

Do Maio de 68 à primavera de 2023

É, sempre foi, esta a força do movimento estudantil. É verdade que as grandes mudanças antissistémicas de que precisamos exigem a mobilização radical de quem vive do seu trabalho, em particular (mas não só) nas indústrias fósseis, nos transportes, na agricultura. Mas o movimento estudantil tem, quando se mobiliza, o potencial político de alargar o confronto social e despertar outros atores políticos. Foi assim no Maio de 68, nos anos da luta contra o fascismo que precederam a revolução de Abril, mas também recentemente no Chile e noutros países. Lembremos que a maior greve geral da história de França (onde, como vemos, elas abundam) foi instigada pelo movimento dos estudantes num primeiro momento. Isto não se faz, nem se fez, com ultimatos, nem com planos muito bonitos gizados por mentes brilhantes, mas pelo confronto nas ruas com o poder. O movimento estudantil sempre aprofundou a luta social quando soube encostar à parede os governos, gritando, para toda a sociedade ouvir, as exigências que podem trazer milhões às ruas. Não por ter esperanças em governos benévolos que oiçam as estudantes, mas por dizer que o poder pode e deve ser confrontado; que assim se constrói contrapoder. Porque quem garante os cegos privilégios das multinacionais que nos espoliam a nós e ao planeta são os governos, com as suas leis, discursos, políticas e polícias.

o grande gasoduto por onde fluem alegremente os lucros de gigantes como a Galp são os corredores do poder, o ministério fóssil de Costa e Silva e o governo de António Costa

Ao contrário do que possa parecer, não são infraestruturas ― gasodutos, refinarias, jatos privados ― que alimentam o capital fóssil. Podemos e devemos opor-nos a estas infraestruturas, inclusive pela ação direta. Mas o grande gasoduto por onde fluem alegremente os lucros de gigantes como a Galp são os corredores do poder, o ministério fóssil de Costa e Silva e o governo de António Costa. Foi por confrontá-los que as Ocupas venceram, em novembro, o primeiro round.

Que a nova vaga de Ocupas siga esse caminho e possa confluir com as muitas lutas em curso, pela educação, a saúde, por vidas justas e habitação, abrindo caminho a uma primavera de combate pelas nossas vidas e o planeta. Que a luta seja quente, para o que o futuro não o seja tanto.

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
Termos relacionados: