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Ocupação não é “violento confronto”, agressão não é “um conflito”

Na Palestina, como noutras partes do mundo, não há nenhum “conflito”, há uma ocupação. Não há “confrontos” entre israelitas e palestinianos, mas uma invasão bárbara à margem do direito internacional e um povo que resiste a ela.

Shireen Abu Akleh tinha 51 anos e era uma conhecida repórter que, há mais de vinte anos, cobria a ocupação militar da Palestina. Veterana da estação televisiva Al-Jazeera, tinha nacionalidades norte-americana e palestiniana. Foi assassinada com um tiro na cabeça no passado dia 11 de maio. Um “assassinato a sangue frio”, um crime “premeditado que viola as leis e as normas internacionais” perpetrado pelas “forças de ocupação israelitas”, acusou a Al-Jazeera. Abu Akleh, uma das vozes mais influentes do jornalismo no mundo árabe, foi baleada enquanto cobria mais uma agressão da “Força de Defesa Israelita" no campo de refugiados de Jenin, cidade no norte da Cisjordânia, ocupada desde 1967. Nem o colete azul que envergava, com a palavra PRESS, lhe valeu.

Três dias depois, o funeral de Shireen foi atacado pela polícia. As imagens correram mundo e são perturbadoras. Enquanto o caixão da jornalista é levado em ombros por uma pequena multidão que lhe presta a última homenagem, a polícia intervém à bastonada, ao pontapé, com gás lacrimogéneo, inclusive contra as pessoas que carregam a urna - que acaba por cair. Pierbattista Pizzaballa, responsável da Igreja Católica na Terra Santa, classificou a fúria desmedida da polícia de Israel como "uma grave violação das normas e regulamentos internacionais, incluindo o direito humano fundamental de liberdade religiosa, que deve ser observado também num espaço público".

O cadáver de Abu Akleh junta-se aos de outros 55 jornalistas mortos pelas forças israelitas desde 2000 (segundo o Sindicato dos Jornalistas Palestinianos), exatamente um ano depois de a sede da agência noticiosa internacional Associated Press ter sido rebentada à bomba pelo exército isaraelita. De pouco serviram, nesse dia 16 de maio de 2021, os apelos ao governo de Israel. O terraço do edifício, onde estavam também instalados escritórios da Al-Jazeera, permitira ao mundo, durante 15 anos, receber imagens dos bombardeamentos de Gaza. O prédio, considerado um dos poucos lugares seguros daquele território ocupado, foi destruído em segundos. Gary Pruitt, presidente da Associated Press, declarou-se “chocado e horrorizado” com o ataque israleita: “o mundo saberá menos sobre o que está a acontecer em Gaza por causa do que aconteceu hoje”.

E assim é. Apesar da condenação das organizações internacionais, da consternação generalizada, Israel continua a destruir gabinetes noticiosos, a assassinar jornalistas, a atacar funerais. E no entanto, em alguma imprensa portuguesa, estes atos bárbaros do invasor são descritos nestes termos: “A polícia israelita entrou, esta sexta-feira, em violentos confrontos com dezenas de palestinianos que acompanhavam o funeral de Shireen Abu Akleh” ( Público, 13 de maio). “Pelo menos um ferido durante confrontos entre palestinianos e o exército israelita em Jenin”, escrevia o Observador do mesmo dia.

Não perdoamos - e bem - que se fale da invasão da Ucrânia como um mero “conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia", porque há um Estado invasor e um país ocupado. Mas, a propósito de outras ocupações, lemos expressões tão próximas do modo como Putin descreveria a sua "operação militar especial”.

A campanha de boicotes e sanções a Israel não é contra “um povo” nem é uma “ideia radical”, mas sim o mínimo que se pode fazer para não sermos totalmente coniventes com uma potência ocupante, tal como os boicotes e as sanções à oligarquia russa. Na Palestina, como noutras partes do mundo, não há nenhum “conflito”, há uma ocupação. Não há “confrontos” entre israelitas e palestinianos, mas uma invasão bárbara à margem do direito internacional e um povo que resiste a ela. Val

Não há nestes casos nenhuma simetria entre os “dois lados” ou as “duas forças”. Na Palestina, não nos cansemos de dizer, há uma ocupação em curso que dura há mais de setenta anos. E a imprensa, também a portuguesa, tem de libertar-se definitivamente do livro de estilo do colonialismo sionista para noticiá-la.

Artigo publicado em expresso.pt a 17 de maio de 2022

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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