Contaminada no Natal, como tantos e tantas outras, foi enviada para as urgências “ao décimo dia de febre”, e só então foi possível perceber o nível de infeção que os sintomas nem sempre denunciam.
A palavra à “senhora Isabel”, o nome por que passou a ser tratada (“e muito bem”, diz a médica) assim que entrou “no circuito”: “Aquilo a que assisti de serenidade, de eficácia, de competência, ficará para sempre marcado como um momento muito alto da minha vida. Sei que as pessoas todas juntas não somam inteligências, multiplicam. É um fenómeno que faz parte da natureza humana, assim a humanidade sobreviveu. Observei a entrada regular e harmoniosa das assistentes operacionais, dos enfermeiros, dos fisioterapeutas, dos jovens médicos internos e das chefes seniores. Cada um sabe o gesto que tem que fazer, o equipamento em que tem que mexer, o registo necessário, a colheita de sangue a horas, a administração do medicamento. E… sabe também informar. Explica o que vai fazer e porquê.”
A isto, a esta “capacidade de auto-organização, rápida, eficaz, criativa, serena”, Isabel do Carmo chamou de “milagre”, um milagre real que acontece diariamente, sabe-se lá com que esforço e exaustão, no Serviço Nacional de Saúde, construído na base de uma cultura de dedicação, de cuidado organizado, de cooperação competente, de atenciosa generosidade, de igualdade não como objetivo distante mas como pressuposto. Impressiona.
E ainda assim não nos sossega totalmente. No momento em que escrevo, são já 11.886 os mortos de Covid em Portugal. Ao luto, somam-se mais de 10 milhões de consultas que ficaram por fazer, centenas de milhares de rastreios de outras doenças que foram adiados (com o que isso pode implicar no futuro), mais de 100 mil cirurgias que não puderam ter lugar, o sofrimento da perda mas também da solidão que resulta do afastamento. Tudo isto dói – e à dor soma-se o cansaço com este tempo que vivemos. Nem por isso devemos, bem sei, deixar de tentar fazer a nossa parte: seguir o protocolo sanitário, diminuir o contacto, confinar (para quem possa fazê-lo). Nem ser menos exigentes com quem tem o leme deste barco. Compreensivos, sim, claro, e empáticos, sempre. Mas não menos exigentes.
Sabendo-se o que se sabe, e mesmo considerando que o trabalho de equipa não se inventa de um momento para o outro, não ganharíamos em pôr de imediato sob o comando do Serviço Nacional de Saúde toda a capacidade de saúde (técnica, infraestrutural e humana) instalada no país, privada e social? Não é o SNS que tem a capacidade de, em nome do bem comum, definir o que é e não é prioritário a nível nacional, o que é mais urgente e essencial, a partir de uma visão de conjunto? Tenho também dificuldade em aceitar que não tenha havido mais empenho e coragem para fixar mais profissionais, em vez de se andar à pressa a fazer contratos de quatro meses com enfermeiros, ou contratos temporários com médicos, que só agora estão em regularização. Inquieta-me a falta de urgência que tem sido posta na revisão das regras das carreiras, não só dos médicos, mas dos auxiliares (que aliás não têm ainda uma carreira), dos técnicos de diagnóstico, dos enfermeiros, pelo que isso tem significado de sobrecarga e desguarnecimento do serviço público. Mesmo sabendo que todas estas coisas não se fazem de um dia para o outro, mesmo sabendo que não é fácil.
Num dia como este, em que é a tragédia que continua a entrar-nos casa adentro, ler o texto de Isabel do Carmo comoveu-me e deu-me esperança. Talvez pela capacidade de se dizer sem artifícios a interdependência e a humanidade que transbordam numa enfermaria em serena aflição. Saber desse cuidado iluminou-me a tarde, contra todas as probabilidades. Obrigado, Isabel.
Artigo publicado em expresso.pt a 29 de janeiro de 2021