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O Twitter é o novo alvo da pirataria financeira

Se Elon Musk controlar o Twitter, e por via dele Trump, ampliar-se-ão os tradicionais problemas deste tipo de redes, que facilitam os discursos de ódio. O defeito passará a ser o feitio, se já não o era.

De uma assentada, Elon Musk comprou 9% do Twitter e tornou-se o seu maior acionista individual. Houve alguma dúvida sobre se queria ou não ocupar um lugar na administração e, mais ainda, se ia prosseguir a compra da empresa, como chegou a anunciar. A administração respondeu com uma ameaça, retaliar emitindo mais ações para desvalorizar as participações atuais e prejudicar a iniciativa de Musk, vista como um perigo. A razão é evidente: Musk, hoje o homem mais rico do mundo em função da valorização vertiginosa da Tesla, é um aventureiro com uma agenda colada à do seu amigo Donald Trump que, tendo fracassado no lançamento de uma rede social própria, pode estar a mover os seus tentáculos para adquirir uma posição comunicacional que lhe sirva nas eleições intercalares do final do ano e nas próximas presidenciais. A absorção do Twitter por este projeto político condená-lo-ia ao fanatismo.

Musk é um dos mais bem-sucedidos multimilionários da pandemia. A sua fortuna multiplicou-se por 11 nestes últimos dois anos, ascendendo agora a 290 mil milhões de dólares

O apetite pelo controlo desta rede social é compreensível. Ela é pequena, um décimo da dimensão do Facebook e menor do que o YouTube, tem menos capacidade de comunicação do que o WhatsApp, mas tem uma alta intensidade entre um público influente e, por isso, tornou-se um dos lugares preferidos dos discursos políticos e ideológicos, como também acontece em Portugal. Se Musk a controlar, e por via dele Trump, ampliar-se-ão os tradicionais problemas deste tipo de redes, que facilitam os discursos de ódio. O defeito passará a ser o feitio, se já não o era.

Os multimilionários da pandemia

Musk é um dos mais bem-sucedidos multimilionários da pandemia. A sua fortuna multiplicou-se por 11 nestes últimos dois anos, ascendendo agora a 290 mil milhões de dólares, algo mais do que todo o PIB de uma economia média como Portugal. Ao longo de 2021, ganhou o equivalente a €280 milhões por dia. Não é caso único. Jeff Bezos, que dirigiu a Amazon, ganhou mais €77 mil milhões, Larry Page e Sergei Brina, cofundadores da Google, cresceram 133% e Bill Gates 38%. Os 741 multimilionários norte-americanos praticamente duplicaram a sua riqueza durante a pandemia, somando 2 biliões de dólares aos seus proveitos, segundo dados da “Forbes”. O mal do mundo foi o seu bem.

Como outros da mesma casta, estes homens têm sido dos grandes beneficiários da “reforma estrutural” do sistema fiscal que foi aprovada por Trump: de 2014 a 2018, os 25 norte-americanos mais ricos pagaram uma média de 3,4% de imposto sobre o rendimento. Musk fez melhor, pagou 3% neste período, sempre a descer: em 2017 pagou o equivalente a €50 mil e no ano seguinte zero. Este ano pagará alguma coisa, por ter exercido a sua opção por ações que se estavam a valorizar, mas é um empresário que sabe vencer na vida e beneficiar dos favores e não ficará a perder. Esse é o poder que o leva a cogitar uma compra que pesa pouco na sua carteira, mas que mostra a sua ambição de controlo, o Twitter seria a sua voz. Talvez seja tempo de nos interrogarmos sobre se esta ambição é compatível com a vida democrática.

A política da finança é o poder

De facto, já há uma resposta para essa questão. Ao longo dos últimos anos, sucessivas investigações jornalísticas têm comprovado a relação estreita entre os mecanismos de enriquecimento através de favores fiscais e outros, e a criminalidade económica ou o abuso do poder político. Os Panama Papers, os Paradise Papers, as revelações sobre instituições, financiamentos e bancos da Suíça, do Dubai, ilhas Caimão, Belize, Mónaco, Delaware, Madeira, entre outros, confirmaram o que já se sabia: o sistema económico apoia-se no segredo do capital e tudo é possível. O que se vai sabendo desde então só acrescenta mais luz sobre o polvo: a lista dos Pandora Papers, revelada no ano passado pelo Expresso, indicava os nomes de 14 governantes em funções e mais 21 que por lá passaram recentemente, entre 300 dirigentes de vários Estados, que, em segredo, teriam feito transferências de capital em offshores. Lá estava todo o séquito de Putin, como seria de esperar; Ilham Aliyev, Presidente do Azerbaijão; Andrej Babis, primeiro-ministro, entretanto reeleito, da República Checa; Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia, que transferiu a sua parte de uma empresa offshore para um amigo, atualmente seu conselheiro; o casal Blair e tantos outros.

Um dos facilitadores que foi mais escrutinado recentemente foi o Credit Suisse, depois da revelação de documentos sobre 30 mil clientes com 80 mil milhões de dólares. A lista inclui o rei da Jordânia e outros governantes do Médio Oriente, duas figuras do caso BES, Álvaro Nascimento e Helder Bataglia, o primeiro-ministro da Ucrânia entre 1997-98 e muito mais gente. O presidente da Comissão de Finanças do Senado dos EUA, referindo-se à velha polémica sobre o segredo bancário, acusou o Credit Suisse de “décadas a facilitar lavagem de dinheiro e evasão fiscal”. Em todo o caso, o banco aceitou pagar 475 milhões de dólares de multa aos reguladores norte-americanos e britânicos em outubro do ano passado, no contexto de alegações em processos de corrupção, e é investigado em Moçambique porque teria pago 200 milhões em subornos a governantes. Horta Osório demitiu-se em janeiro, na sequência da violação de regras sanitárias.

Portanto, se nos perguntamos se queremos multimilionários enriquecidos pelos favores fiscais à frente de redes da comunicação mundial, a resposta é evidente.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 22 de abril de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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