O Triunfo dos Demónios

porRui Matoso

09 de outubro 2013 - 0:13
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O próximo Orçamento de Estado deverá ser incluído no género literatura pornográfica e mais especificamente no subgénero sádico.

Noutro dia reencontrei o livro de Stefan Zweig, e a partir do seu título: o combate com o demónio, imaginei por instantes que pudesse conter uma prescrição hermenêutica da atualidade, cujo aspeto político-legal se assemelha, afinal, a uma versão apocalíptica do triunfo dos porcos de duas pernas. Depois acordei e verifiquei que afinal tudo se mantinha tal e qual, o livro de Zweig continuava a ser uma trilogia de retratos comparados de Hölderlin, Kleist e Nietzsche.

A estes três possessos do século 19 alemão, Zweig contrapõe a figura apolínea de Goethe, não para valorizar mais uns do que outro, mas para diferenciar formas opostas de lidar com o demónio (daimon). Enquanto Goethe manteve o seu daimon dominado, não se deixando levar pelas tensões vulcânicas da alma, os outros três génios submeteram-se às explosões do desassossego quotidiano, vivendo e morrendo como heróis trágicos.

Goethe representa a ordem burguesa e os seus ideias, cuja banalidade existencial é avessa ao confronto direto com o infinito caótico, com a rebeldia e o êxtase. E é por isso que o “seu método é inteiramente capitalista”, pois contrariamente à tríade de atormentados, Goethe acumulava eficientemente os seus lucros espirituais em vida. Tal como a um comerciante avisado, a vida regrada retribuía-lhe juros em estima e reconhecimento intelectual, mas também uma conta bancária recheada.

Na verdade isto tudo vinha a propósito do terrorismo social aplicado aos pensionistas1, nomeadamente no corte das pensões de sobrevivência e viuvez anunciado pelo governo triunfante. É evidente que estes anúncios de mais austeridade cruel são apenas mais um elemento no imenso rol das badalhoquices, desde a nódoa de Machete aos Swaps de Albuquerque, das birras ministeriais às recorrentes crises intestinas, passando pelas diversas demonstrações de ignorância política e falta de rigor na administração pública, tudo somado revela o grau de ignomínia e infâmia a que nos fizeram chegar. Contudo, por cima desta abjeção informe e cacofónica, aparece sempre o mesmo mantra do “regresso aos mercados”, da “credibilidade face aos mercados”, da novel “sustentabilidade da dívida”, a propósito da qual Cavaco Silva diz não compreender a razão por que analistas e políticos dizem que a dívida portuguesa não é sustentável: "Só há uma palavra para definir esta atitude: masoquismo", disse2. Logo de seguida, a resposta do Bloco de Esquerda no parlamento viria da Catarina Martins: “Sadismo: É essa a política do Governo”3.

Nesse sentido o próximo Orçamento de Estado deverá ser incluído no género literatura pornográfica e mais especificamente no subgénero sádico, pois vai mais além da comum persuasão literária para entrar no campo da violência racional do carrasco sem piedade pelas suas vitimas. Muito para lá dos delírios que o próprio Marquês de Sade havia alguma vez sonhado, há neste sadismo governamental aquilo que Deleuze chama de elemento impessoal do sadismo que “identifica essa violência impessoal com uma Ideia da razão pura, com uma demonstração terrível capaz de subordinar a si o outro elemento”4.

Basicamente o que existe são imperativos sádicos, demonstrações de força, provocações, ameaças, obscenidades, palavras de ordem destinadas a humilhar as instituições (tribunal constitucional) e as vitimas atingidas pelas vergastadas, isto é pelos cortes que sentem cada vez menos como uma abstração monetária e mais na sua carne como concretização física, psicológica e social do “austeritarismo”. E as consequências não se fazem esperar, os suicídios, numa média de 84 por mês5, e o aumento do consumo de anti-depressivos são o resultado da depressão profunda que atinge 7,9% da população portuguesa.

Abstendo-me por agora de tirar conclusões definitivas acerca da tipologia demoníaca deste governo, e de o aproximar do perfil ideal-capitalista (Goethe) ou do trágico-caótico (Holderlin, Kleist, Nietzsche), para usar as metáforas literárias de Zweig, uma coisa parece-me certa: um governo de direita constituído por um grupo de "beatos" como este só exerce este tipo de violência sádica porque usurpou os mecanismos violentos do Estado e conta ainda com a segurança, higiénica e distante, do braço armado militar, do controlo policial e da vigilância cibernética dos serviços de informação.

Mas até quando?


4 Gilles Deleuze (1973). Sade|Masoch. Assírio & Alvim. P.19

Rui Matoso
Sobre o/a autor(a)

Rui Matoso

Investigador e docente universitário
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