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O “triumpho” das multinacionais

Durante quase três semanas, 463 trabalhadoras e trabalhadores da antiga fábrica da Triumph, em Sacavém, resistiram heroicamente, à chuva e ao frio, muitos em situação financeira extremamente complicada, para lutar pelos seus direitos laborais e sociais.

Durante quase três semanas, 463 trabalhadoras e trabalhadores da antiga fábrica da Triumph, em Sacavém, resistiram heroicamente, à chuva e ao frio, muitos em situação financeira extremamente complicada, para lutar pelos seus direitos laborais e sociais. Passados 20 dias, muito graças ao apoio de alguns partidos políticos, da sociedade civil e da comunicação social, a angústia acabou. Mas, terá acabado mesmo?

Confesso ter uma enorme dificuldade em alinhar com os que clamam por vitória neste processo, por variadíssimas razões. Desde logo porque uma parte significativa da elite política nacional optou por assobiar para o lado enquanto pode ou por simplesmente ignorar um dos factos políticos e laborais mais relevantes dos últimos anos. Chegou tarde e a más horas, no último dia antes da desmobilização, sorrindo timidamente para as câmaras de TV que se acotovelavam no local.

Outros houve que nem se dignaram marcar presença, menos de um ano após se porem em bicos de pés a posar, sorridentes, para a fotografia, aquando da venda da fábrica à Textil Gramax International, uma empresa cuja atividade principal passa por liquidar e desmantelar fábricas por toda a Europa, como pode comprovar-se no excelente texto elaborado pelo Público.

A verdade é que, um ano depois, as perspetivas para as centenas de trabalhadoras e trabalhadores da fábrica da Triumph não são animadoras. Os que podem optar pela reforma terão o problema resolvido, os mais novos voltarão à luta da procura de emprego, mas os que serão demasiado novos para a reforma e demasiado “velhos” para o mercado de trabalho vão ter um problema sério. Eles, elas, as suas famílias e o município de Loures, ou não estivéssemos perante o maior empregador privado do concelho.

No mundo das “Triumphs”

A norte, novo caso “Triumph”. A Ricon, empresa têxtil de Vila Nova de Famalicão fornecedora da multinacional norte-americana Gant, prepara-se para lançar mais 600 pessoas no desemprego. A intransigência da Gant, responsável por 80 por cento das encomendas da Ricon, foi decisiva no desfecho, tendo "recusado participar em qualquer solução que permitisse salvaguardar a continuidade da atividade da empresa e que permitisse a não liquidação do grupo".

A razão do fecho de fábricas na Europa é há muito conhecida: deslocar a produção para países com mão-de-obra quase escrava e onde os direitos sociais e laborais não são mais do que uma miragem. Apesar disso, os governos do velho continente, onde se inclui o português, continuam a compactuar com “a vontade do mercado”, concedendo incentivos fiscais de vários tipos sem garantir contrapartidas e a permitir este jogo do gato e do rato, que possibilita fechar uma empresa em Portugal para abrir, no dia seguinte, uma nova em França ou noutro país europeu.

A solução para este problema, que irá transitar de país em país, sempre em nome da “competitividade”, não é fácil e exige a colaboração dos governos e dos organismos internacionais, da ONU à OIT, da União Europeia ao FMI e ao Banco Mundial.

Só quando se decidir colocar os direitos individuais e humanos acima do lucro fácil e o interesse coletivo acima das vaidades individuais, lutando por condições laborais e sociais à escala global se poderá verdadeiramente começar a evitar casos “Triumph”. Só com uma verdadeira regulamentação europeia que impeça abrir e fechar empresas como quem abre conta num banco, brincando com as vidas dos trabalhadores e das suas famílias, se poderão começar a dar passos verdadeiros no combate à imoralidade económica.

Esta luta não se configura fácil. A recente aprovação do CETA, enfraquecendo o poder dos governos e das leis e regulamentos face aos interesses das grandes multinacionais vai no sentido inverso ao que é necessário para proteger os direitos de quem trabalha. A eleição de Trump e outros embaixadores do poder empresarial para os mais altos cargos políticos é outro mau presságio. Mas, por vezes, bastam poucas dezenas de mulheres fortes e determinadas para chamar a atenção e mudar o estado das coisas. Porque o mundo não pode dormir para sempre!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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