O tempo da polícia nas faculdades

porLeonor Rosas

12 de dezembro 2023 - 12:42
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Não, a faculdade não é uma fábrica de trabalhadores para seguirem para o mercado de trabalho. Queremos um espaço que alimente o pensamento crítico, que crie pessoas alerta para as injustiças e transformações sociais e que não se conformem. Nessa faculdade, a polícia não terá lugar.

No tempo da polícia nas faculdades, estudantes eram presos, torturados e espancados por exigirem um mundo diferente. A polícia não hesitava em entrar nas faculdades, com a conivência das direções alinhadas com o regime, para impedir a organização estudantil, a formação de associações de estudantes democráticas ou a contestação contra a Guerra Colonial. Outros, que já estavam dentro das faculdades, andavam disfarçados no meio dos estudantes, prontos para denunciar as suas ações e para partir para a violência logo que necessário. Era o tempo dos chamados “gorilas”. Todos conhecemos as imagens das crises académicas. As imensas alamedas de Lisboa e Coimbra encheram-se de jovens que não aceitavam mais o fascismo, não queriam mais ser empurrados para uma guerra contra os ventos da história e ousaram ensaiar um futuro de liberdades nos espaços onde estudavam, fazendo tremer o regime. Foram brutalmente reprimidos por essa polícia que entrava nas faculdades. Muitas vezes, a repressão policial contra os estudantes culminou na anulação das suas matrículas nas faculdades e subsequente envio para a Guerra Colonial.

No tempo da polícia nas faculdades, estudantes eram presos, torturados e espancados por exigirem um mundo diferente

No tempo da polícia nas faculdades, José António Ribeiro Santos, com apenas vinte e seis anos, dirigiu-se até à Faculdade de Economia para um protesto relâmpago estudantil contra a guerra e nunca mais regressou a casa. O protesto em que participava foi invadido pela polícia política: no meio do tumulto que se instalou, Ribeiro Santos foi assassinado com um tiro da PIDE. Tornou-se, assim, no símbolo trágico de uma geração de estudantes que sabiam que o único futuro possível para si e para os seus residia no derrube do fascismo.

Com o 25 de Abril, o tempo da polícia nas faculdades terminou. A PIDE e a sua incessante participação perseguição a quem se organizava contra o fascismo e a guerra deixaram de existir. Formaram-se comissões de trabalhadores, unidades coletivas de produção, comissões de moradores, sindicatos livres e também associações de estudantes democraticamente eleitas. A organização política deixou de ser alvo de perseguição. A luta política foi legalizada, a manifestação, a expressão de ideias dissonantes e plurais e a possibilidade de organização coletiva saltaram da clandestinidade para o palco da experiência política ensaiada nos anos da Revolução.

Com o 25 de Abril, o tempo da polícia nas faculdades terminou

Nas últimas semanas, assistimos várias vezes às imagens da retirada à força de estudantes ativistas pelo clima das faculdade onde protestavam, sendo agressivamente arrastados pela polícia. Os agentes entraram pelas faculdades, interromperam uma palestra e prenderam estudantes que, pacificamente, chamavam a nossa atenção para uma das mais importantes batalhas que travamos. As imagens destas ativistas a serem arrastadas pelas mãos da polícia, algemadas e obrigadas a interromper os seus protestos pacíficos, ecoam imagens de alguns dos capítulos mais trágicos da nossa História. Não deixemos que se banalize.

Nas últimas semanas, assistimos várias vezes às imagens da retirada à força de estudantes ativistas pelo clima das faculdade onde protestavam, sendo agressivamente arrastados pela polícia

Tantas destacadas figuras do Estado se apressam a condenar a tinta atirada a ministros ou as ocupações que interrompem o trânsito, mas oferecem-nos um silêncio ensurdecedor face à repressão destes protestos com recurso à força policial. Silêncio esse que apenas se torna mais denso e insuportável ao pensarmos na absoluta justiça das reivindicações destes ativistas. O Brasil regista temperaturas altíssimas, com uma sensação térmica perto dos 60 graus, assistimos a uma multiplicação de fenómenos naturais extremos - furacões, cheias, incêndios - por todo o mundo que se devem às alterações climáticas. Em 2022, um terço do Paquistão ficou submerso. Espécies desaparecem a olhos vistos, a desflorestação da Amazónia ainda não foi travada, o degelo continua. Não precisamos de ir tão longe: o mês de dezembro aproxima-se e as temperaturas registadas são apontadas por especialistas como anormalmente altas para esta altura do ano. O desconforto que agora sentimos quanto a este calor persistente tornar-se-á em desespero e em mudanças trágicas das nossas vidas ao longo das décadas. A razão está do lado das reivindicações por justiça climática. Por muito que os nossos governantes recorram a métodos violentos para silenciar quem aponta o dedo à catástrofe que se adivinha e que nada estamos a fazer para parar, ela estará ao virar da esquina.

A razão está do lado das reivindicações por justiça climática. Por muito que os nossos governantes recorram a métodos violentos para silenciar quem aponta o dedo à catástrofe

A faculdade não é apenas um espaço letivo, do qual saímos à hora a que termina a nossa aula, como se o seu propósito se tivesse esgotado. Pelo contrário, nela temos oportunidade de ensaiar a construção de um mundo novo, de disputar democraticamente eleições, de nos organizar coletivamente e de repensar a forma como somos ensinados. Não, a faculdade não é uma fábrica de trabalhadores para seguirem para o mercado de trabalho. Queremos um espaço que alimente o pensamento crítico, que crie pessoas alerta para as injustiças e transformações sociais e que não se conformem com o que lhes é dito que é imutável. Nessa faculdade, a polícia não terá lugar.

Artigo publicado em Gerador a 7 de dezembro de 2023

Leonor Rosas
Sobre o/a autor(a)

Leonor Rosas

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Mestranda em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. Deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista
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