O Rio que nos dá nome

porAdriana Temporão

20 de janeiro 2026 - 12:31
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São várias as notícias que deveriam despertar a nossa preocupação. Na Galiza, durante este verão várias praias fluviais do Rio Minho foram encerradas devido à baixa qualidade da água. Do lado de cá, porém, não se ouviu qualquer explicação, alerta ou reação.

O rio que dá nome à nossa região tem sido, ao longo dos anos, esquecido e negligenciado. Um dos símbolos que nos identifica parece ter deixado de merecer a atenção que deveria mobilizar todos. Esta falta de atenção, nos dias que correm, com a pressão das alterações climáticas, torna-se mais grave.

São várias as notícias que deveriam despertar a nossa preocupação. Na Galiza, durante este verão várias praias fluviais do Rio Minho foram encerradas devido à baixa qualidade da água. Do lado de cá, porém, não se ouviu qualquer explicação, alerta ou reação. O rio é o mesmo, a água é a mesma e, talvez, os problemas até se agravem ao longo do seu percurso.

Entre as ameaças mais sérias estão as plantas invasoras, como a sanguinária-do-japão e a Ludwigia peploides. Esta última, acarreta diversos problemas, até de saúde pública, tendo sido feito o alerta de que pode potenciar a reprodução de mosquitos transmissores de doenças, como a dengue e o zika. Investigadores alertam que a proliferação desta espécie invasora neste rio é tal, que já não será possível a sua erradicação, resta apenas tentar controlá-la. Com o avanço das alterações climáticas e o consequente aumento das temperaturas, estas espécies invasoras encontram condições mais favoráveis para proliferarem do que as autóctones. À medida que competem entre si, as espécies nativas acabam por recuar, comprometendo o equilíbrio do ecossistema e agravando a sua vulnerabilidade.

Outro sinal preocupante é o declínio da lampreia, um dos ex-líbris do nosso rio e um recurso fundamental para a economia local. De janeiro a abril, multiplicam-se as queixas de pescadores e autarcas sobre a escassez de peixe, que tem piorado de ano para ano. A qualidade da água, bem como a sua temperatura e variações no caudal, consequência da crise climática, são apontadas como algumas das causas, mas, terminado o período da pesca, o silêncio regressa. O tema desaparece da agenda pública, e com ele, as medidas concretas que poderiam travar esta degradação. Esta é uma atividade importante para a região, e mesmo assim, vemos todos os anos as mesmas queixas mas muito pouca ação sobre as mesmas.

Como foi possível chegarmos até aqui?

Portugal e Espanha são ambos signatários da Convenção de Albufeira, que obriga os dois países a adotar “individual ou conjuntamente, as medidas técnicas, jurídicas, administrativas ou outras necessárias” para, entre outros, “alcançar o bom estado das águas”, “prevenir a degradação das águas e controlar a poluição”, e “prevenir, eliminar, mitigar ou controlar os efeitos dos incidentes de poluição acidental.”. O Rio Minho está incluído nesse acordo. Mas que medidas têm sido efetivamente aplicadas? Onde está a coordenação entre os dois lados da fronteira? E, sobretudo, como estão os dois países a preparar o rio para os impactos cada vez mais visíveis das alterações climáticas?

A má qualidade das águas do Rio Minho põe em risco muito mais do que a biodiversidade. Está em causa a saúde pública, a economia local, a identidade de uma região

A má qualidade das águas do Rio Minho põe em risco muito mais do que a biodiversidade. Está em causa a saúde pública, a economia local, a identidade de uma região. O rio é um ecossistema complexo e interdependente, como um castelo de cartas, em que a queda de uma peça faz desabar todo o conjunto.

Adriana Temporão
Sobre o/a autor(a)

Adriana Temporão

Investigadora. Doutorada em Ciências Biomédicas na área de Parasitologia. Ativista social, ambiental e contra a precariedade dos trabalhadores científicos em Portugal.
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